O que eles dizem que não se pode ver
O Meu Mundial

O que eles dizem que não se pode ver

Dizem que o mundo está cheio de invenções concebidas com a melhor das intenções. Verdade. Mas aquilo a que assistimos também é ao aproveitamento delas para as colocar ao serviço dos piores princípios. Como a censura. Este Mundial provou-o uma vez mais.

Quando as transmissões televisivas se instalaram de armas e bagagens nos Campeonatos do Mundo de futebol o objetivo era, simplesmente, ligar o planeta a um determinado acontecimento de modo a que todos os países participantes - e os outros, que também são gente - pudessem ver os jogos, seguindo aquela lógica de "levar" os estádios a casa da cada um.

Foi a chegada da televisão, de resto, que empurrou em definitivo o futebol para a mutação em mega-indústria que atualmente é. Tudo isto seria muito louvável, não fosse a dona desta máquina imparável, a FIFA, ter entrado por caminhos que começaram por ser discutíveis e hoje são condenáveis.

Afinal, este Catar 2022 não nos traz o estádio até casa, pela simples razão de que nos proíbe de ver em casa tudo aquilo que quem está no estádio vê. A FIFA quer um Mundial "clean" e as transmissões televisivas estão a fazer por isso.

O primeiro alerta tinha sido dado quando a seleção alemã tapou a boca na foto antes do desafio com o Japão. O mundo não viu, porque as imagens em direto foram ocultadas. Felizmente, há fotojornalistas e aquele ato carregado de simbolismo pôde ser observado pelos olhos do planeta.

Entretanto, houve o episódio da seleção iraniana que não cantou o hino do seu país, outro ato relevante neste Mundial, mas algo impossível de eliminar num direto, porque o silêncio, por definição, não é audível. Embora diga muitíssimo. De facto, foi bem mais simples para a FIFA despachar das bancadas aquela adepta do Irão com uma camisola de Mahsa Amini.

E, depois, o Portugal - Uruguai. Enquanto todos seguíamos com ansiedade uma partida que nos colocaria nos oitavos de final, ouvimos o nosso António Botelho falar de um adepto que entrava pelo relvado transportando uma bandeira arco-íris, envergando uma t-shirt com inscrições, alguém a tentar retirá-lo de campo, jogo interrompido...

Nós, nada vimos. Ali, a rádio ganhou, porque viu e contou aquilo que a televisão também viu, mas não mostrou. Como diria o Costa Monteiro, não foi o momento do jogo, mas foi o momento marcante do jogo. Além do mais, acabámos por saber tudo, até o que diziam as inscrições na t-shirt, uma sobre a Ucrânia, outra sobre as mulheres iranianas (mais um ponto para os fotojornalistas).

Podemos interrogar-nos sobre o que a FIFA e o organizador Catar pensam ganhar com a censura ao que possa tocar a imagem de um torneio que eles querem deixar para a História como fascinante.

Provavelmente, a intenção é somente minorar os estragos que vêm de trás. Pelo menos, evitam que, daqui a uns anos, alguém possa descobrir no YouTube aquele momento em que um adepto italiano conseguiu fazer um três-em-um na contestação à violação dos direitos humanos.

Só que estão a fazê-lo recorrendo aos mesmos métodos das autoridades de Pequim, a quem o Mundial trouxe um acréscimo de dores de cabeça na aplicação do controverso plano "zero covid", quando os chineses viram milhares de pessoas num estádio sem máscaras, enquanto eles continuam enclausurados.

A CCTV decidiu, por exemplo, substituir as imagens dos adeptos nas bancadas por imagens de jogadores ou da equipa técnica, recorrendo a um atraso de 30 segundos. Ou, ainda mais bizarro, passar a seleção portuguesa a cantar o hino duas vezes só para não mostrar os espectadores. A análise feita pela Agência Lusa é esclarecedora.

Nietzsche dizia que para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo. A FIFA, por via das dúvidas, acha que o melhor mesmo é tapá-los.

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