Tirar as costas do sofá
O Meu Mundial

Tirar as costas do sofá

Aceito o calculismo no futebol. Também é preciso. Mas não há melhor que a imprevisibilidade daquele remate, corrida, toque, finta que não estava nos planos de uma equipa técnica. O resultado que mexe com todos os outros jogos e obriga a jogar mais com o coração e a emoção. Ou seja, o futebol.

Finalmente. Quinta-feira à noite dei por mim sentado à beira do sofá, em casa, a fazer contas. As contas do Grupo E. O mérito pertenceu ao Japão e à Costa Rica com a coragem de olhos nos olhos enfrentarem os campeões do mundo. A Alemanha despediu-se e a Espanha tremeu. E eu, finalmente, não quis estar confortável a ver um jogo deste Mundial. Entrei no jogo.

O futebol está entrar cada vez mais no campo planeado. As comitivas técnicas dos principais clubes e seleções constroem as suas equipas com ligações cada vez mais estreitas a pessoas com a adoração pela estatística. Quanto correu um jogador, quando e onde. Quando arriscou num drible, em que zona do terreno e a percentagem de sucesso dessa forma de jogar.

Os jogadores usam coletes para medir/contar tudo o que fazem dentro de campo. Não estou contra isso. A tecnologia existe, temos de a aproveitar - a arbitragem que o diga. Apenas lamento que, por vezes, se discuta mais a percentagem de interceções de um médio ofensivo entre linhas, por exemplo. Os quilómetros que correu e onde, e depois mostra-se um Mapa de Calor com as posições pisadas no relvado pelo atleta. É bom e engraçado saber disto.

Mas, e aquele abraço ao guarda-redes argentino, Emiliano Martínez no jogo dos oitavos de final? Emiliano segurou a vantagem de 2-1 sobre a Austrália nos últimos segundos do tempo de compensação. Os colegas deitaram-se no relvado e abraçaram o guardião que tinha a bola nos braços, encostada ao peito, e a continuidade da equipa no Catar.

Quantas defesas difíceis tinha feito o Emiliano até aquele momento? E se a bola entrasse? Garang Kuol, que foi a jogo aos 72 minutos de jogo pela Austrália - foi ele que rematou e quase empatou - quantas vezes tinha conseguido rematar naquela zona do terreno e ganho a bola em posição tão privilegiada? Nenhuma.

Mas posso continuar. O passe delicioso de Son que baralhou toda a defensiva portuguesa para o golo da vitória sul-coreana. A estrela da equipa surgiu no momento certo para dar início ao choro dos adeptos, daquele país asiático, nas bancadas. Um choro de emoção e alegria. Como não adorar isso?

Naquele momento todos os tablets, dossiês com folhas de planeamento e posicionamentos são atirados ao chão. É isto que me faz gostar de futebol. A imprevisibilidade de que a qualquer momento um jogo ter que contar outra história.

Depois, chegam as equipas das estatísticas e métodos quantitativos, para se preencherem as folhas de cálculos. Os recordes, as datas, os números. O que faltou, ou melhor, o que fica a faltar para se atingir esses números. Admito, também paro para ler essas folhas, mas bem depois da verdadeira história do jogo, e tento fugir a essas discussões numéricas.

Não aprecio a cegueira da perseguição desses números. E quem sabe, se não turva um objetivo e uma missão de quem está no Catar.

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