Miguel Poiares Maduro

Gastar mal, em vez de investir bem

No filme Fight Club, a certa altura, um dos personagens diz que "compramos coisas de que não necessitamos, com dinheiro que não temos para agradar a pessoas de que não gostamos". Esta frase veio-me à memória ao ler um artigo do Politico, o principal jornal europeu, que descrevia de forma embaraçante alguns dos gastos com que a presidência portuguesa da União Europeia pretende "agradar" à Europa. Esses gastos são apresentados como supérfluos e incompreensíveis, em particular, mas não apenas, no quadro de uma presidência que, em virtude da pandemia, irá ter poucas ou nenhumas reuniões presenciais. É importante dizer que não é incomum os países oferecerem pequenas lembranças simbólicas, como uma gravata ou um lenço, com o logo da sua presidência. O que chocou o jornal europeu foi, não apenas a dimensão dessas despesas, mas a sua natureza. Algumas são apresentadas como incompreensíveis: fatos para motoristas, por ex., quando é de supor que os motoristas do Estado já os têm. Outras são despesas supérfluas que, num contexto de crise económica e social, são difíceis de justificar. E existem ainda despesas que se tornaram totalmente desnecessárias face ao facto de a presidência ter deixado de ser, em boa medida, presencial.