"As pessoas estão a desobedecer." Moradores rompem com bloqueios em Pequim

Manifestações alastram-se pela China contra a política de tolerância zero face à Covid-19. Representante da Amnistia Internacional fala de um "abanão" para o regime.

Centenas de grupos de moradores em Pequim estão a sair dos seus condomínios, rompendo de facto com as medidas de prevenção epidémica vigentes na China, enquanto manifestações se alastram por várias cidades do país asiático.

"As pessoas, simplesmente, estão a desobedecer", descreveu à agência Lusa Fabian Kratschmer, um jornalista alemão radicado na capital da China. "Parece que atingimos um ponto de inflexão na estratégia 'zero covid'", observou.

Vários testemunhos ouvidos pela agência Lusa relataram experiências semelhantes: grupos de moradores por toda a cidade organizaram-se e exigiram aos respetivos comités dos seus bairros que apresentassem uma ordem, assinada pelo Governo, a ordenar o bloqueio, e a respetiva base legal para as medidas. Em vários bairros, os moradores derrubaram as chapas metálicas, desbloqueando efetivamente as suas áreas de residência.

"É abanão, mas o regime está bem ancorado", afirma Teresa Nogueira Coordenadora do cogrupo sobre direitos humanos na China Amnistia Internacional Portugal, em declarações à TSF.

"Xi Jinping tem ao longo dos anos a feito essa consolidação do regime a pondo nos postos chave quem muito bem entende e afastando aqueles que possam ter qualquer laivo de discordância e, portanto, o regime está e bem e tem as forças armadas atrás.

Em Pequim, o efeito dominó começou no sábado, à medida que foram surgindo vídeos de moradores a sair para as ruas, contrariando as ordens dos comités.

As medidas de prevenção epidémica da China são as mais restritivas do mundo, ao abrigo da política de 'zero casos' de covid-19. A estratégia inclui o isolamento de todos os casos positivos e contactos próximos, o bloqueio de bairros ou cidades inteiras e a realização constante de testes em massa.

Não há relatos de confrontos violentos na capital chinesa.

No entanto, em Cantão, a maior cidade do sul da China, o distrito de Haizhu tem sido palco de violentos confrontos entre trabalhadores migrantes e forças de segurança. Na cidade de Zhengzhou, no centro do país, milhares de trabalhadores numa fábrica da Foxconn, o grupo que monta os iPhone da norte-americana Apple, episódios de violência entre operários e forças de segurança irromperam também na semana passada.

"Vivo na China há 30 anos e nunca vi uma expressão de raiva tão descarada contra o Governo", descreveu David Moser, sinologista norte-americano radicado em Pequim. "Trata-se de um teste sério para a governação do PCC", notou.

Também nas cidades de Xangai, Nanjing e Urumqi, manifestações pacíficas irromperam contra as restrições impostas no país, suscitadas por um incêndio em Urumqi, que resultou em dez mortos. Imagens difundidas nas redes sociais mostram que o camião dos bombeiros não conseguiu entrar inicialmente no bairro, já que o portão de acesso estava trancado, e que os moradores também não conseguiram escapar do prédio, cuja porta estava bloqueada, em resultado das medidas de prevenção epidémica.

Em Urumqi, grupos de manifestantes cantaram "Aqueles de vós que se recusam a ser escravos, ergam-se" - um verso do hino nacional chinês -- e gritaram "queremos liberdade", apelando para o fim dos testes em massa e dos códigos QR, uma versão bidimensional do código de barras colocado na entrada de todos os edifícios, assim como nos transportes públicos ou táxis. O acesso a locais públicos ou residenciais depende da digitalização destes códigos com uma aplicação instalada no telemóvel.

A indignação inundou também as redes sociais do país, apesar do aparelho de censura se esforçar por apagar vídeos e mensagens de protesto difundidos pelos internautas.

"Podemos finalmente ver que há sangue na guelra da juventude chinesa", comentou Song Mei, chinesa natural de Pequim, à Lusa. "Ainda há esperança para este país", disse.

De acordo com o portal especializado What's On Weibo, numerosos utilizadores da rede social Weibo - o equivalente ao Twitter, que está censurado no país - expressaram apoio à vigília, mas, sobretudo, pediram aos participantes que se protegessem, antes que os censores da plataforma proibissem os comentários.

O mesmo portal avançou que, numa universidade em Nanjing, leste da China, os estudantes reuniram-se no 'campus', no sábado à noite, e acenderam as luzes dos telemóveis, numa vigília em memória dos mortos em Urumqi.

Noutra universidade, neste caso em Xian, centro do país, uma cidade que também passou por duros bloqueios, um grupo de estudantes saiu ao 'campus' para mostrar a sua insatisfação com as medidas de confinamento.

De acordo com dados da Comissão Nacional de Saúde, a China somou, nas últimas 24 horas, quase 40.000 novos casos de covid-19, um novo recorde diário. A amplitude geográfica dos casos é também inédita, afetando dezenas de cidades por todo o país em simultâneo.

Isto coincide com a realização do Mundial. O evento desportivo, acompanhado por dezenas de milhões de chineses, evidenciou para muitos o contraste entre o país e o resto do mundo, dando origem ao tema #SeráQueEstamosNoMesmoPlaneta nas redes sociais chinesas.

Muitos chineses, até então limitados à informação vinculada pelos órgãos oficiais, que continuam a descrever o mundo exterior como "devastado pelo vírus", em contraposição com uma China "segura", revelaram-se estupefactos com a ausência de regras de distanciamento social e adeptos sem máscaras.

"O Mundial arrancou e Pequim está em silêncio absoluto", descreveu Jessica, uma hospedeira de bordo chinesa a residir na capital da China, num comentário difundido na rede social WeChat, durante a cerimónia de abertura do Mundial. "Sinto-me como se estivesse no fundo de um poço, a contemplar um mundo maravilhoso, com o qual não posso interagir", acrescentou. "Qual é então o propósito de viver?", questionou.

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