Detenção de repórter da BBC é "ridícula". Repórteres Sem Fronteiras acusam China de criar "teia de mentiras"

Repórteres Sem Fronteiras condenam detenção de repórter da BBC em Xangai. À TSF, Cédric Alviani afirma que as desculpas da China são "ridículas" e defende que o "povo chinês está farto das mentiras do governo" que "usa a Covid-19 como desculpa para suprimir ainda mais a informação".

Os Repórteres Sem Fronteiras condenam a detenção do repórter da BBC, em Xangai, e apelam ao regime chinês que respeite o direito de informar sobre os protestos. Cédric Alviani, diretor dos Repórteres sem Fronteiras no Oeste da Ásia, considera revoltante a agressão ao repórter da BBC no último fim de semana. Ouvido pela TSF, Alviani diz que as desculpas apresentadas pela China são ridículas e mostram desfasamento da realidade.

"O que está atualmente a acontecer em várias cidades da China é muito preocupante. Claro que isto é ultrajante e ainda mais porque as autoridades alegam que só queriam salvar o jornalista de apanhar Covid-19 da multidão. É a desculpa mais ridícula que alguma vez ouvi e mostra até que ponto o atual governo chinês e as suas políticas estão desfasadas da realidade. Eles estão presos na sua própria teia de mentiras e é-lhes cada vez mais difícil desistir", afirma.

Cédric Alviani elogia os repórteres no terreno e lembra que há 99 jornalistas presos na China continental e 11 em Hong Kong.

"Estes jornalistas sabem do risco que correm e temos de agradecer-lhes por ajudarem o mundo a saber o que se está a passar na China. É especialmente importante porque, neste momento, podem estar a decorrer eventos históricos na China e é muito importante que os jornalistas estejam lá para reportarem o que está a acontecer. O que lhes podemos aconselhar é que se mantenham seguros, a segurança está primeiro", adianta, sublinhando: "O que estes jornalistas fazem é crucial para que o mundo tenha informação baseada em factos sobre o que se passa na China, e não ser forçado a acreditar na propaganda do governo."

O responsável dos Repórteres sem Fronteiras no Oeste da Ásia defende que "o povo está farto das mentiras do governo, da censura e propaganda governamental, que esconde a realidade dos factos e que usa a Covid-19 como desculpa para suprimir ainda mais a informação". "Claro que esperamos que sejam protestos pacíficos, mas só podemos esperar uma abertura na China e essa abertura do governo só pode resultar da pressão do povo."

Um jornalista da BBC foi "espancado e pontapeado pela polícia", antes de ser detido, em Xangai, no domingo, enquanto cobria um dos protestos contra medidas de prevenção da Covid-19 impostas na China.

A emissora pública britânica, através de um porta-voz, mostrou-se "muito preocupada" ao confirmar que o repórter de imagem Edward Lawrence "foi atacado" em Xangai no domingo, como demonstram imagens partilhadas nas redes sociais, nas quais se vê agentes da polícia a arrastarem o jornalista algemado pelo chão.

A BBC criticou o facto de não ter recebido nenhuma explicação oficial nem um pedido de desculpas por parte das autoridades, "além de uma declaração de que ele teria sido detido para seu próprio bem, caso fosse contagiado com o coronavírus no meio da multidão".

Edward Lawrence, que trabalha na delegação da BBC em Pequim, viajou para Xangai para cobrir os protestos dos últimos dias.

As medidas de prevenção epidémica da China são as mais restritivas do mundo, ao abrigo da política de 'zero casos' de Covid-19. A estratégia inclui o isolamento de todos os casos positivos e contactos próximos, o bloqueio de bairros ou cidades inteiras e a realização constante de testes em massa.

Nos últimos dias, manifestações contra as restrições espalharam-se por grandes cidades da China como Pequim, Xangai e Nanjing.

Os protestos intensificaram-se na quinta-feira, após a morte de dez pessoas num incêndio num edifício alvo de confinamento em Urumqi.

De acordo com o jornalista agredido, em publicações partilhadas na sua conta no Twitter, a polícia bloqueou estradas e não deixava passar as pessoas, depois de a multidão ter aumentado.

A capital chinesa, que tem estado especialmente protegida contra surtos desde 2020, está agora a experimentar os níveis mais elevados de contágio: de acordo com o último relatório oficial, mais de 4.300 novos casos foram detetados no sábado, 82% dos quais assintomáticos.

Estes números, baixos pelos padrões internacionais, mas intoleráveis para as autoridades chinesas, resultaram em restrições e confinamentos que afetam uma grande parte da população da capital.

De acordo com dados da Comissão Nacional de Saúde, a China bateu no sábado o número recorde de infeções, detetando quase 40.000 novos casos, embora mais de 90% se tratem de casos assintomáticos.

Os números oficiais mostram que cerca de 1,8 milhões de pessoas estão atualmente sob quarentena, uma vez que a diretriz é transferir os casos - incluindo assintomáticos - e também, mas separadamente, aqueles que tiveram em contacto com os infetados, para hospitais ou centros de isolamento.

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