"Estamos só no início de uma crise muito funda e devemos estar preparados para o longo prazo"

Antigo presidente da Comissão Europeia não vê uma resolução para a guerra na Ucrânia no curto prazo e avisa que os europeus têm de se preparar para a crise a longo prazo. Durão Barroso defende um novo pacote de ajuda idêntico ao aprovado para dar resposta ao impacto da pandemia.

O antigo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, mostra-se muito preocupado com a Guerra na Ucrânia e admite que não vê uma solução para o conflito no médio e longo prazo. Durão Barroso alerta que ainda só estamos no início de uma crise muito funda.

"Estou muitíssimo preocupado com a situação na Ucrânia. Acho que o mundo não é o mesmo depois de 24 de fevereiro, acho que só estamos no início de uma crise muito mais funda, que está a dividir o mundo. E temos de estar preparados para o longo prazo", avisa.

À margem da participação no Summer CEmp, organizado pela representação da Comissão Europeia em Portugal, que este ano decorre, na Ribeira Grande, nos Açores, Durão Barroso confessa que não consegue ver o desfecho desta situação.

"O mais grave é que aqueles que têm alguma responsabilidade e que estão em posições de decisão também não estão a ver (o desfecho). (...) Temos uma situação de grande incerteza que é muito séria do ponto de vista militar, humanitário e ecónomo e acho que na Europa temos de estar preparados para isso", explica.

O antigo presidente da Comissão Europeia elogia a resposta dos estados-membros a esta crise provocada pela agressão russa. "Reagiu com coragem, com força e determinação, mais talvez que aquela que Putin esperava."

"Europa faz-se nas crises"

Depois de 10 anos na liderança em Bruxelas, Durão Barroso elogia o comportamento dos países da União Europeia na resposta à crise, sublinhando a aprovação de programas e sanções "que eram impensáveis há alguns anos atrás".

"A Europa está a tornar-se mais madura, mais adulta do ponto de vista geopolítica. A Europa durante muitos anos viveu na ilusão que as questões do mercado resolviam tudo. Ora é muito importante termos um mercado comum, temos um mercado interno, mas a Europa tem de se dotar de uma política externa e de defesa mais consequentes e consistentes", considera.

O antigo primeiro-ministro lembra que, se a Europa não tivesse aplicado os atuais pacotes de sanções contra Moscovo, isso teria consequências devastadoras na região. "Seria uma tragédia para a Europa, não perdíamos o respeito por nós próprios, perdíamos na batalha dos princípios e valores, mas era o encorajamento que maiores e mais graves ameaças fossem feitas" a outros países da NATO ou da UE.

Com o impacto da guerra nos mercados e no custo de vida dos europeus, Durão Barroso recorda que "foi quebrado o tabu" da mutualização da dívida decidida como resposta à pandemia e defende que deve haver uma resposta idêntica para ultrapassar a crise provocada pela guerra na Ucrânia.

A resposta à anexação da Crimeia

Durão Barroso ainda estava na Comissão Europeia em 2014, altura em que a Rússia invadiu e anexou a região da Crimeia. O social-democrata rejeita a ideia de passividade e lembra que não "se podem criticar as decisões de ontem com informações de hoje".

"Não gosto que se julguem decisões retroativamente porque é fácil hoje dizer que na altura podiam ter sido feito mais. Mas na altura, o que se passou foi que, alguns países, por razões compreensíveis, quiseram manter o diálogo com a Rússia. Penso que a ideia de manter o diálogo com a Rússia não é errada, acho que é positivo manter o diálogo", lembra, sublinhando que a "Europa como tal fez o que devia ter feito".

Durão Barroso foi um dos oradores convidados do SummerCEmp, a escola de verão da Comissão Europeia que este ano decorre, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, nos Açores. O antigo presidente da Comissão, que lidera atualmente a GAVI - Aliança Global das Vacinas, falou também sobre o impacto global da pandemia e lembra que os países têm de estar preparados para novos vírus.

Quanto à política nacional, sem querer alongar-se e fazendo referência que está fora da política ativa, diz que continua a ser do PSD. "Sou dos moderados, não gosto dos radicais."

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de