Em Pemba é desolador ver as famílias à espera de boas notícias

Carlos Almeida, coordenador da ONG Helpo em Moçambique, descreve a situação em Cabo Delgado como catastrófica. Em declarações à TSF este português diz que ainda há milhares de pessoas em fuga.

Carlos Almeida andou durante o dia de hoje pela cidade de Pemba a acudir a uma e outra situação e contou o que viu, "eu passei pelo aeroporto e o que se vê é um cenário de grande desilusão. Estão muitas pessoas do lado de fora à espera de notícias, à espera de familiares. Algumas nem sabem se vem alguém nos helicópteros, estão lá só à espera de informações. O mesmo acontece no porto de Pemba, sabe-se que está prestes a chegar um ferry com mil e duzentas pessoas vindas de Palma. As pessoas estão aqui à espera, não têm tido contacto com os familiares, só estão à espera de terem boas notícias."

O coordenador da ONG portuguesa Helpo, que está em Cabo Delgado há 11 anos, refere que entre 25 a 30% da população da província está nesta altura deslocada. Agora com as cerca de 60 mil pessoas que estavam na Vila de Palma o número de deslocados ultrapassa os 700 mil. Em Pemba o problema é grande e está a adensar-se, há muita gente que já não tem acesso a alimentos. "Se por um lado as famílias que vivem em meio rural conseguem cultivar e fazer uma agricultura de subsistência, as que estão na cidade não têm acesso a terra e estão a passar muito mal", acrescenta Carlos Almeida.

Durante esta quarta feira as Nações Unidas revelaram que a Mueda, uma vila no interior que fica a 180 quilómetros de Palma, chegaram 1768 pessoas que fizeram a distância a pé. Cerca de três quartos destes deslocados são mulheres e crianças. Carlos Almeida sublinha que todas estas pessoas precisam de alimentos e roupa porque deixaram as casas onde moravam apenas com o que tinham no corpo.

A situação em Cabo Delgado arrasta-se há três anos com ataques de extremistas islâmicos contra aldeias e vilas. O coordenador da organização Helpo conta que o ataque a Palma não foi o mais violento mas os investimentos estrangeiros na zona deram-lhe visibilidade. "Os dois grandes ataques à Vila de Mocìmboa da Praia foram muito mais pesados, nomeadamente o segundo em agosto do ano passado. Este ataque provocou o êxodo de toda a população e a Vila de Mocìmboa é bastante maior do que a de Palma. Outras ações contra Macomia e a Quissanga foram também muito grandes.

"Eu penso que este ataque está a ter maior impacto por causa da proximidade de Palma ao projeto de gás natural da Total. Se nós pensarmos que já estão 700 mil pessoas deslocadas isso significa que desde o dia 5 de outubro de 2017, data do primeiro ataque, muitas aldeias e vilas têm sofrido bastante. A agressão a Palma foi a gota de água, mas efetivamente o copo já transbordou porque têm sido muitas as pessoas afetadas," conclui o português.

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