Jornalista na lista de Erdogan confia no Estado de Direito sueco

Bulent Kenes é um dos cidadãos, fugidos da Turquia, que encontrou na Suécia um porto de abrigo. Agora espera uma decisão do supremo tribunal para saber se pode ficar no país.

A invasão russa da Ucrânia causou uma reviravolta na vidas dos turcos que durante anos se exilaram na Suécia. Perante a agressão de Putin, a Finlândia e a Suécia alteraram a política de neutralidade e pediram a entrada na NATO. O presidente turco viu aí uma oportunidade para forçar os dois países a entregarem os cidadãos que quer julgar. Há uma lista com algumas dezenas de pessoas cuja extradição é exigida por Ancara. Erdogan diz que só aprovará a adesão à aliança atlântica se elas forem entregues.

Nessa lista está o nome de Bulent Kenes, antigo jornalista da agência oficial de notícias turca, Anatolia, que criou o próprio jornal em língua inglesa (entretanto fechado). Ouvido pela TSF, ele admite que apoiou os dois primeiros governos de Erdogan porque promoviam a democracia, a paz e a estabilidade e a adesão à União Europeia, mas em 2011 com a primavera árabe a situação mudou e, o então primeiro-ministro, voltou às origens islamistas. O jornalista diz que deixou de apoiar Erdogan e foi aí que os problemas começaram.

À medida que publicava textos críticos ao governo as acusações foram aumentando. "Depois de ele ter mudado de ideias e de ter regressado a uma agenda radical islâmica critiquei-o e comecei a ser alvo do regime. Aconteceu por volta de 2011, 2012 e a pouco e pouco fui-me tornando um inimigo," explicou Kentes, acrescentando que a visibilidade que tinha na sociedade turca agravou a situação. Foi acusado de terrorismo, de ter insultado o presidente e de pertencer ao Movimento Gulen, que a Turquia acusa de ser o responsável pela tentativa de golpe. Ao todo a justiça turca abriu 12 processos contra ele.

Bulent Kenes garante que nunca foi terrorista, apenas exerceu o direito à liberdade de expressão, foi jornalista e por isso foi perseguido, "eles usaram todos os meios disponíveis para me oprimirem e intimidarem. Tentaram silenciar-me. Abriram uma série de processos contra mim e contra o jornal e detiveram-me cinco vezes antes da tentativa de golpe de estado em 2016."

Ele admite que não esteve muito tempo detido por causa da pressão internacional, mas o regime de Erdogan não abrandou. Em 2015 tiraram-lhe o passaporte quando foi condenado por ter insultado Erdogan. O crime foi escrever no Twitter uma mensagem dizendo que a mãe do presidente não se orgulharia dele. Um ano depois, após a tentativa de golpe, decidiu abandonar o país.

Sem passaporte passou as fronteiras ilegalmente e chegou à Suécia onde pediu, de imediato, asilo politico. Ele explicou que escolheu esse país porque representava tudo aquilo porque sempre lutou. "Na Turquia sempre me bati por um país com um alto índice democrático, defesa dos direitos humanos, transparência e liberdades. Sempre que olhava para o mundo via que a Suécia e os outros países escandinavos tinham democracias bem-sucedidas e todo o tipo de liberdades."

Em fevereiro deste ano, o governo de Estocolmo informou-o de que Ancara tinha pedido a extradição e ele teria de ir a tribunal provar que precisa de proteção. O caso subiu ao supremo tribunal e é agora esperada uma decisão. Bulent Kenes não acredita que os suecos o deportem porque "a Suécia e a Finlândia respeitam o estado de direito, a política não tem qualquer interferência no sistema judicial. São os juízes que determinam quem é deportado e quem é terrorista ou não. Eu confio no estado de direito sueco e não vejo, em circunstâncias normais, qualquer justificação para me deportarem."

O processo está a decorrer normalmente e Kenes diz que depois do verão, a decisão será conhecida. Apesar disso ele lamenta que as autoridades suecas tenham levado o caso à justiça, porque nos outros países da União Europeia os pedidos de extradição turcos são simplesmente recusados já que os 27 não consideram o Movimento Gulem uma organização terrorista.

Apesar da confiança, o jornalista admite que ser usado como moeda de troca tem sido muito duro e reavivou todos os traumas que sofreu. "Vim para a Suécia para ter liberdade de expressão, mas agora as autoridades tornaram-se uma espécie de longo braço de Erdogan para chegarem a mim e intimidarem-me." Ele reconhece que já não se sente tão seguro como antes, porque desde que o nome foi exposto como terrorista tanto ele como a família tornaram-se um alvo para os apoiantes mais fanáticos do presidente.

Bulent Kenes admite que a vida dele voltou a mudar nos últimos meses e vê todo este caso como um grande paradoxo, "a NATO foi criada para proteger as democracias do fascismo e do comunismo, mas agora tornou-se um instrumento de um déspota. Em vez de obrigar Erdogan a ser mais democrático a aliança está a ceder à pressão dele."

O jornalista quis terminar a entrevista com uma mensagem. "A Suécia e a Finlândia querem ser membros da NATO para se protegerem do expansionismo russo, mas o Erdogan não é muito diferente de Putin. Ele também é um déspota, só que um pouco mais fraco. Se o presidente turco se tornar mais forte podem estar certos de que será mais perigoso do que o Putin."

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