Médicos Sem Fronteiras assinalam 50 anos a cuidar "no sítio onde dói"

A organização Médicos sem Fronteiras surgiu para responder à tragédia humanitária criada pela guerra civil do Biafra e tem vivido por dentro todos os grandes conflitos internacionais do último meio século.

A organização Médicos Sem Fronteiras assinala esta quarta-feira, 22 de dezembro, 50 anos de existência. A organização viveu todos os conflitos e crises internacionais dos últimos 50 anos, mas nasceu durante a guerra civil de Biafra, na Nigéria.

Durante o verão de 1968, na Nigéria, em Biafra, a região secessionista foi alvo de um bloqueio total do governo federal. A fome mata seis mil pessoas por dia e o Ocidente descobre as imagens de crianças com barriga inchada a morrer à fome. Dois médicos querem testemunhar e rompem com o bloqueio que impede a Cruz Vermelha, da qual faziam parte, de entrar na região.

"Não podíamos ficar indiferentes porque ninguém falava disto. Era preciso ser a voz daqueles que não têm voz e era preciso testemunha contra o massacre e tortura de populações. Não podíamos ficar indiferentes e voltar para casa e retomar as consultas nos hospitais, isso teria sido cumplicidade", descreve Bernard Kouchner.

A 11 de novembro de 1971, 40 médicos criam uma associação, os Médicos Sem Fronteiras. Sete anos depois, a MSF está no centro de uma nova crise. Em 1978, milhares de vietnamitas, de cambojanos, fogem dos países em barcos cheios. É nesse momento que nasce a ideia do barco de ilha de luz, para socorrer os boat-people no mar da China.

"Este barco surge porque não existem hospitais na ilha. Não podemos hospitalizar pessoas, estamos à espera da construção de um hospital e não podem ser enviadas para nenhum lado", defende Bernard Kouchner, que deixaria a MSF um ano depois para criar os Médicos do Mundo.

Depois da grande seca de 1984, na Etiópia, as equipas da ONG instalam campos de refugiados. "No campo de Coremo, onde contamos cem mortes diárias, há uma escola onde crianças brincam e riem e já voltaram a ter um peso normal", testemunha Gérard Jouannest.

A organização está convencida de que a sua humanitária é aproveitada pelo governo etíope. A ONG é expulsa do país e o presidente Rony Brauman denuncia "deslocações forçadas de populações. Dezenas de milhares de pessoas são enganadas nos campos, nas aldeias, com falsas ajudas humanitárias para chamar a atenção das pessoas e para as levarem para destinos desconhecidos".

A independência quanto aos governos e instituições são valores defendidos pela ONG Médicos Sem Fronteiras. A Somália em 1993, o Ruanda em 1994 e a intervenção do médico Jean-Hervé Bradol ao canal televisivo francês TF1, a 16 de maio de 1994.

"Todas as casas são revistadas para extrair parte da população suspeita de ser hostil à frente mais extremista das Forças Armadas. As pessoas suspeitas desta hostilidade são executadas, bem como toda a família. A execução de bebés, mulheres, pessoas idosas, todos", denuncia. "Não se trava um genocídio com médicos", a celebra frase de Jean-Hervé Bradol.

Em 1999, o prémio Nobel da Paz é atribuído à MSF pela independência e eficácia das ações. A maior operação de urgência dos Médicos Sem Fronteiras teve lugar em 2010 no Haiti.

"O mundo inteiro foi abalado por esta catástrofe, que tirou a vida a centenas de milhares de pessoas. Nessa altura, tivemos um momento de donativos impressionante. A MSF passou de uma pequena escala, com algumas missões, sobretudo financiadas por países ocidentais, na altura, para ganhar outra dimensão", descreve o diretor da MSF.



Jean-Guy Vataux realça que uma das coisas mais espetaculares que a MSF conseguiu fazer foi "criar esta comunidade, composta por sete milhares de pessoas, que continua a ajudar a MSF. Estas pessoas confiam em nós para saber onde devemos intervir, mas com o compromisso de transparência. Hoje a MSF é este grupo que nos permite intervir e durante a pandemia, voltamos a registar essa ajuda".

Passados 50 anos, como é que a organização humanitária, que se intitula sem fronteiras, enfrenta as fronteiras erguidas pelo mundo? "O futuro do mundo é uma pergunta muito vasta", responde. "Nós vemo-nos como médicos e não como profetas. A associação Médicos Sem Fronteiras não quer mudar o mundo. Intervimos em situações de crise para socorrer populações em perigo. Fazemo-lo fornecendo tratamentos. Não tivemos, ao longo da nossa história, ambições de influenciar o rumo da história, nem intervir nos conflitos porque temos um princípio de neutralidade", conclui.

Cinquenta anos depois da sua criação, em Paris, a organização Médicos Sem Fronteiras prossegue o seu caminho, cuidando das feridas das populações esquecidas no mundo. Um percurso marcado pela evolução da assistência médica, que é hoje composta por 60 mil pessoas, com vontade de reforçar a sua presença nos países mais vulneráveis e chegar a mais pessoas.

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