Putin recebido na China em período de tensões comuns com o Ocidente

Vladimir Putin vai participar na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim.

O Presidente russo, Vladimir Putin, é o principal líder estrangeiro a comparecer na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, na sexta-feira, ilustrando a aproximação entre Pequim e Moscovo, num período de tensões com os Estados Unidos.

Putin vai ser recebido, esta semana, pelo Presidente chinês, Xi Jinping, que há quase dois anos não reúne presencialmente com um líder estrangeiro, devido à pandemia da Covid-19.

O Presidente russo realizou apenas duas viagens ao exterior desde o início da pandemia, em março de 2020.

Ambos os líderes enfrentam um contexto adverso nas suas relações com os países ocidentais: a Rússia é ameaçada com novas sanções e os Jogos Olímpicos de Inverno na China foram boicotados diplomaticamente por Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido.

A presença de Putin na abertura do evento surge assim num contexto semelhante ao de 2014, quando Xi Jinping marcou presença nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, na Rússia, numa altura em que Moscovo era também criticado por alguns líderes ocidentais por violações dos Direitos Humanos.

Desde então, os dois líderes reuniram-se quase 30 vezes e tornaram-se "grandes amigos", segundo Xi.

Frequentemente, China e Rússia realizam em conjunto exercícios militares, incluindo no Báltico e mar da Arábia, e programas de exploração espacial. A Rússia partilhou também com a China alguma da sua tecnologia militar mais avançada.

Ao longo das últimas sete décadas, os dois países passaram por uma divisão ideológica e conflitos fronteiriços no período da União Soviética.

Moscovo e Pequim voltaram a aproximar-se a partir de 1996 com uma "parceria estratégica", implicitamente voltada contra a hegemonia dos EUA nos assuntos internacionais.

Os dois países resolveram as suas disputas territoriais e assinaram um tratado, em 2001. Desde então, estabeleceram diversos mecanismos de colaboração estratégica, incluindo a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), um bloco político, económico e de segurança que integra também os países da Ásia Central e o Irão.

A aproximação tornou-se mais óbvia em 2014, após a deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, devido à anexação da península ucraniana da Crimeia. Com Donald Trump na Casa Branca, os Estados Unidos passaram também a encarar a China como um rival estratégico, o que resultou na escalada para uma competição em quase todos os âmbitos.

Artyom Lukin, professor na Universidade Federal do Extremo Oriente da Rússia, considera que "não há limites para o desenvolvimento da quase aliança sino-russa", caso os Estados Unidos insistam numa política de dupla contenção contra ambos os países.

Na questão iraniana, China e Rússia opõem-se às sanções dos EUA. Na semana passada, as três nações realizaram exercícios navais conjuntos no Golfo de Omã.

Na Ásia Central, Pequim apoiou o envio de tropas russas para travar os protestos no Cazaquistão. Xi Jinping disse que a China apoiava as medidas tomadas pelo Cazaquistão para restaurar a segurança e se opunha às forças externas que alegadamente instigavam uma "revolução colorida" no país.

"Para a China, a Rússia não é apenas uma retaguarda estratégica estável e um fornecedor confiável de recursos, mas também pode servir como um apoio na luta contra os Estados Unidos, através da partilha de recursos políticos e militares", disse Wan Qingsong, professor associado do Centro de Estudos Russos da Universidade Normal do Leste da China.

"Especialmente numa altura em que a relação China--EUA está a entrar numa fase de impasse, inevitavelmente atrairá mais recursos políticos e militares de terceiros. O valor da Rússia é óbvio", acrescentou Wan, referindo-se aos movimentos dos EUA para fortalecer as suas alianças na Ásia e Europa, o que pressionará a China a aproximar-se ainda mais da Rússia.

Para a Rússia, a China é um parceiro indispensável na atual crise diplomática que enfrenta.

"A Rússia pode querer um gesto extra de apoio verbal da China para sair do isolamento político induzido por uma onda unida de acusações da comunidade ocidental", disse Danil Bochkov, especialista do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia.

A China, a segunda maior economia do mundo, pode também dar à Rússia alguma imunidade contra possíveis sanções dos EUA.

Isto alarga-se ao Irão. Os três países estão em discussões para a formação de uma frente internacional contra as sanções dos EUA.

Com mais de 100.000 soldados russos e equipamentos militares estacionados ao longo da fronteira com a Ucrânia, aumentaram os receios sobre uma possível invasão.

Biden alertou que vai impor sanções à Rússia se Moscovo invadir a Ucrânia.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, disse ao secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, na semana passada, que as preocupações de segurança da Rússia sobre a Ucrânia devem ser respeitadas.

Wang afirmou que a segurança regional não pode ser garantida pelo fortalecimento ou expansão de blocos militares.

"As preocupações razoáveis da Rússia devem ser levadas a sério e resolvidas", apontou.

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