Reportagem TSF em Kiev: "Nunca matei um pássaro, mas, se for preciso, disparo"

As sirenes não tocaram. A última noite decorreu "sem sobressaltos" na capital ucraniana, conta o enviado especial da TSF em Kiev, que afirma que, na cidade, se sente que "alguma coisa vai acontecer", embora não se saiba quando.

Cerca de um terço da população ainda está na cidade, segundo as contas do presidente da Câmara de Kiev. As pessoas vivem estes dias com alguma "ansiedade" e "angústia", reporta o enviado especial da TSF em Kiev, Pedro Cruz​​​​, lembrando que a apenas 20 quilómetros da capital travam-se duras batalhas e há cidades que já foram nominadas pela Rússia.

As tropas terrestres russas não têm, no entanto, avançado muito nos últimos dias, frisa Pedro Cruz. "Não estariam a contar com tanta resistência do exército ucraniano e defesa da população civil", que estão a usar "táticas quase medievais para tentarem, por todos os meios, travarem os russos." O repórter aponta como o exemplo a escavação de uma grande vala, junto a uma das entradas da cidade, que encheram depois com água, para atolar os carros de combate russos. Conta que foram divulgadas também imagens de uma coluna de blindados russos encurralada pelas forças ucranianas.

Aquilo que tem feito a diferença na vantagem russa nesta guerra, nota o enviado da TSF, é "o poder de fogo que vem dos céus". Daí o apelo constante das autoridades e da população para o encerramento do espaço aéreo.

Ainda assim, sublinha Pedro Cruz, os ucranianos estão dispostos a lutar e confiantes na bravura e coragem do seu exército. O repórter lembra que esta é uma nação "feita de histórias bélicas, de confrontos". "Faz parte do ADN do povo ucraniano. São "guerreiros."

É por isso que a população está a fornecer, dentro das suas possibilidades, tudo o que consegue, para que o exército tenha condições para continuar esta luta. O repórter da TSF relata que se cruzou com um homem idoso que foi deixar, aos combatentes ucranianos, "dois aquecedores e três frascos de compota". Tudo o que tinha, para ajudar.

Em Kiev, continua a haver abastecimento de comida e água. As vias de comunicação estão abertas. E há muitos voluntários que, durante a noite, em carrinhas e carros particulares, fazem essa entrega de bens. "É um trabalho, às vezes, suicida, porque, a partir das dez da noite, é proibido circular e a noite é sempre mais perigosa", refere Pedro Cruz.

A cidade está repleta de 'checkpoints'. No centro, junto a locais como a sede do Parlamento, a sede do Governo e a Praça da Independência, são feitos por militares. Mas fora das zonas centrais é a defesa civil, formada por pessoas comuns, que tem essa responsabilidade. O enviado especial da TSF encontrou um destes combatentes que, na realidade, é empresário. Conta que já esteve noutras guerras, mas que nunca disparou uma arma. "É incapaz de fazer mal a um periquito." No entanto, diz que, desta vez, "se for preciso", disparará.

Os ucranianos não creem que o conflito se vai resolver com negociações. Não creem na boa vontade dos russos para isso. A única saída em que acreditam é numa vitória militar.

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