A história não se repete. Isto não é a II Guerra

Da mesma forma que os anos entre as duas guerras mundiais, com elas incluídas, mudaram a humanidade, também a crise financeira de 2009, os dois anos de "paralisia e medo causados pela pandemia" e "uma guerra no celeiro do mundo" mudarão este século.

Todavia, alerta Daniel Oliveira na crónica semanal na TSF, "não se faz história no presente", pelo que "não sabemos como isto será contado no futuro". É que, "ao contrário do que se pensa, a história nem sempre é justa e rigorosa", comenta o jornalista, dando como exemplo o que hoje se diz sobre Hitler: "Ainda hoje se diz que chegou ao poder por causa da hiperinflação quando, na realidade, chegou ao poder dez anos depois dela em período de deflação e por causa da recessão e da explosão de desemprego que acompanhou a grande depressão."

Na opinião de Oliveira, a incapacidade de perceber o que está a acontecer no presente leva as pessoas a procurarem paralelos do passado. Mas isso, sustentado na ideia de aprender no passado para não errar no futuro, tem as suas limitações porque a "história não se repete mesmo".

No seu entender, "o impacto da pandemia numa economia tremendamente globalizada e interligada e numa sociedade mediatizada, que dá um valor diferente à vida, não é comparável ao que aconteceu na pneumónica, uma pandemia quase ignorada pela história, quando comparada com a grande guerra que lhe foi contemporânea". De igual modo, "uma guerra na Europa na era nuclear não é comparável com uma guerra entre potências que podia ser vencida sem pôr em causa a sobrevivência de grande parte da humanidade."

O jornalista nota também que, perante a complexidade e incerteza, "transferimos as personagens do passado para as do presente: "Putin é Hitler, prestes a ocupar a Europa e a destruir o mundo livre (...) e Zelensky é Churcill." "Tudo isto é uma réplica da segunda guerra num mundo tão diferente que cada comparação só pode ser um alçapão que, em vez de servir para iluminar o caminho, bloqueia a compreensão de tudo o que seja diferente da realidade que já conhecemos", diz.

Esta forma de olhar para a guerra na Ucrânia "é como se o futuro já estivesse escrito e qualquer solução que fuja desse guião seja uma traição" e "todos querem estar do lado certo da história". Por isso, acrescenta, "cada lado chama nazi ao lado oposto, não percebendo que replicam o passado para não terem de perceber o presente."

Daniel Oliveira defende, no entanto, que apesar de não sabermos" o que estes anos terríveis farão ao nosso mundo", devemos "levar a sério todos os avisos: que as democracias europeias podem não aguentar o que aí vem, que a fome pode criar novos focos de guerra ainda mais incontroláveis do que este, que o passado ajuda a perceber o presente porque explica como chegámos a ele, não porque se repita vezes sem conta e só a amnésia coletiva nos leva a cometer erros".

Se assim fosse, sublinha, tudo era muito simples. "Só que ninguém podia ter previsto que ao fim da grande guerra sucederia uma depressão económica e uma segunda guerra mundial e ninguém poderia ter previsto, em 1939, que o mundo que sairia da guerra que então começava seria mais justo e mais democrático".

O jornalista defende, por isso, que "devemos fazer o melhor que podemos com o que sabemos, sem termos a ilusão que estamos a escolher o lugar dos heróis, dos vilões e dos traidores, numa história que já está escrita". "O lado em que estamos na história só os vencedores do futuro o dirão e provavelmente serão injustos porque já sabem o fim de uma história que ainda não nos foi contada", termina.

*Texto redigido por Melissa Lopes

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