A sopa delas e o nosso enfado

Esta semana, Daniel Oliveira debruça o tema da crónica de​​​​sobre a polémica dos ativistas ambientais do movimento Just Stop Oil, que atiraram sopa ao quadro Girassóis, de Van Gogh, em exposição na National Gallery, em Londres.

Na opinião do cronista, duas jovens ativistas ambientais usaram "a velha tática de criar choque para ser assunto". Ainda assim, o debate no Reino Unido "não foi a mensagem que tentaram passar, mas como tornar mais duras as penas para estes casos".

"Não preciso de explicar que não é esse incómodo que ficará na história, mas a luta a que estes jovens se entregam em nome da sobrevivência da humanidade", realça.

Daniel Oliveira questiona se "houve desadequação simbólica na ação" dos ambientalistas, mas acredita que "o acerto tático foi evidente", recorrendo ao exemplo do protesto, dias depois, dos ativistas do movimento Climáximo, em Lisboa, à porta da sede da Galp. Apesar de ser "mais relacionado com o tema que Van Gogh", não conseguiram, mesmo em Portugal, "um décimo da atenção", porque o "tema mais importante da história da humanidade só merece atenção com muito estardalhaço."

"Há, neste momento, um aparente conflito entre o combate à inflação e a crise energética que a provoca, e um ataque à intensificação de exploração de combustíveis fósseis, mas os que recusam tocar nos lucros das petrolíferas ao controlar preços, não aceitam que em momentos de emergência há medidas de emergência e usam a emergência para adiar a transição energética, como se isso fosse uma possibilidade", evidencia o jornalista.

A transição energética, "exclusivamente baseada na lógica do mercado", chocará, na opinião de Daniel Oliveira, "com o muro de injustiça social, que a fará recuar em todas as democracias, e será paga pelos mais pobres, que elegerão quem trava este processo", porque "não há debates sobre políticas energéticas, crescimento económico, ou estratégia ambiental que possa contornar o tema de todos os tempos: a desigualdade da distribuição de recursos escassos."

O cronista comentou as palavras ditas pelos ativistas após encherem o vidro de sopa: "a vida é mais importante do que a arte". "É evidente que é, como a vida é condição para tudo, ela é mais importante do que tudo, mais importante do que a democracia, e nem por isso eu apoiaria ataques simbólicos à democracia em nome da defesa do planeta", explica.

"O perigo deste discurso é o de em nome de uma luta que não pode ser perdida, relativizar tudo sem que isso ajude sequer esta luta", adiciona Daniel Oliveira, justificando o termo que utilizou mais cedo, de "desadequação simbólica", porque "o argumento permitiu que quem não está disposto a oferecer nada a essa luta, exiba mais uma vez a sua arrogância perante qualquer ativismo" ou "sentimento de urgência" sobre as alterações climáticas.

Para o jornalista, "basta ver o ódio violento que a ativista Greta Thunberg provoca em tantos para perceber que a desadequação simbólica é o menos relavante incómodo que a sopa nos girassóis causou", porque "as pessoas não querem ouvir que lhes saiu na rifa decisões que determinarão a sobrevivência da humanidade e do planeta, porque odeiam que lhes digam isso".

"Negaram as alterações climáticas enquanto puderam" e agora "limitam-se a odiar quem lhes diz o que elas já sabem", salienta, justificando o ódio ao ato da sopa no quadro do Van Gogh com um momento em que a Guerra na Ucrânia "obriga a acelerar escolhas".

"É possível, e foi assim que ouviu o grito das duas jovens, que nos estivessem apenas a dizer que a justificável dor que sentimos ao ver o perigo de uma obra de arte desaparecer para sempre da face da terra não é sentida quando, todos os dias, se extinguem várias espécies por causa das alterações climáticas", exemplifica.

Na opinião de Daniel Oliveira, até ao momento "em que já nada podemos fazer para viver aqui, mesmo que em muito piores condições, porque isso já é certo". A história da humanidade "está cheia de tragédias, guerra e crimes por lutas que hoje temos como heroicas", mas o cronista acredita que "não há nenhuma luta na história da humanidade com um décimo da importância desta".

"Temos muita sorte que estas jovens só atirem sopa a vidros e façam escolhas mais ao menos acertadas na simbologia que escolheram para gritarem que estão cansadas de esperar, tratemo-las pelo que são: incrivelmente moderadas, talvez até sejam irresponsavelmente moderadas. Nós, a minha geração, somos só irresponsáveis e, no entanto, cheios de enfado com esta impaciência", conclui.

*Texto redigido por Clara Maria Oliveira

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