A verdade que dói

A verdade é demasiadas vezes maltratada pelos políticos. É raro vê-la ser recebida com um sorriso por quem está no governo e por quem está na oposição e, não raras vezes, da esquerda à direita, ninguém gosta dela, porque ela não serve os interesses da retórica partidária. A maioria opta por a ignorar quando ela não é conveniente, mas há quem a torture, à espera que ela diga o que convém. Olhemos para esta semana que passou.

O sistema de pensões, como existe em Portugal, não é viável. Como o pagamento das reformas depende das contribuições de quem está no activo, com o envelhecimento da sociedade, vamos entrar rapidamente em défice da previdência e depois esgotar também rapidamente o Fundo de Estabilização Financeira. Isto devia obrigar toda a gente a falar verdade e a assumir, sem papas na língua, que não é possível actualizar as pensões em pagamento de acordo com uma lei que não previu a possibilidade da inflação ser tão alta.

Ouvir o primeiro-ministro e o ministro das Finanças ensaiar dizer a verdade sem dar o passo seguinte, ouvindo depois a ministra da Segurança Social, no Fórum da TSF, garantir que a actualização das pensões de acordo com a lei iria retirar 13 anos à sustentabilidade da Segurança Social, só nos remete para a falta de decoro com que o chefe do Governo remeteu o assunto para a luta partidária, garantindo que não ia acontecer o que ninguém que ia acontecer. Da oposição também seria de esperar mais conversa sobre a necessidade de reformar o sistema.

A verdade que dói é que, 11 anos depois de termos chamado a Troika, Portugal não está capaz de enfrentar sozinho o mercado de dívida. Também aqui nos ficamos pelas meias palavras, sem cuidar de explicar que, para mantermos a ajuda do Banco Central Europeu, estamos obrigados a aproveitar a receita extraordinária do IVA para reduzir a dívida e estamos proibidos de acrescentar despesa fixa, pelo que as prestações sociais e os ordenados dos funcionários públicos acabarão actualizados, no máximo, pela metade do valor da inflação.

Como poderíamos esperar que uma dívida que cresceu, em valores absolutos, cerca de 70 mil milhões de euros, desde que chamamos a Troika, fosse já um assunto resolvido? Não é. Uma vez mais, convinha não ficar pelas meias palavras. Para já, gastamos seis mil milhões só a pagar juros anualmente, mas pelo caminho que isto leva, com a taxa directora do BCE em subida constante nos próximos meses, essa factura vai pesar ainda mais, enquanto caminhamos para uma possível recessão.

Em Belém e São Bento, haverá alguém disponível para contar a verdade aos portugueses?

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