A vitória dos que viram o tabuleiro quando perdem o jogo

As diferenças e semelhanças entre as eleições intercalares que decorrem esta terça-feira nos EUA e as últimas eleições presidenciais brasileiras são o tema de reflexão de Daniel Oliveira no habitual espaço de opinião na TSF. O jornalista começa por lembrar Fernando Haddad, candidato do PT que, em 2018 e derrotado por Jair Bolsonaro, fez o que é suposto ser feito em democracia.

"Antes de regressar à sua vida de professor - e não de beneficiário de uma mesada do partido, com direito a uma mansão e advogados pagos -, reconheceu a derrota e desejou boa sorte ao vitorioso. Os seus apoiantes não sofriam menos do que sofrem os bolsonaristas, até porque sabiam que os esperavam quatro anos de ódio. Apenas aceitavam as regras da democracia", lembra Daniel Oliveira.

Na opinião do cronista, Haddad sabia que o seu dever, mesmo quando se sentia raiva entre a sua base de apoio, era transmitir força para a oposição que seria precisa, sem nunca questionar a legitimidade do voto. A primeira condição para a democracia funcionar. E compara a derrota de Haddad com a recente derrota de Bolsonaro.

"Não preciso de descrever o que aconteceu na semana passada. Depois de passar dois anos a alimentar dúvidas infundadas sobre o mesmíssimo sistema de votação que o elegeu a ele e aos seus antecessores, Bolsonaro ficou dois dias calado sabendo que a narrativa que construíra e as campanhas de desinformação que a sua máquina estava a trabalhar levariam os apoiantes mais fanatizados para a rua", explica o jornalista.

Sem condições internas e externas para um golpe, Daniel Oliveira não tem dúvidas de que o objetivo de Bolsonaro era deixar a democracia refém de uma ameaça de caos. Tal como fez "o seu modelo de sempre": Donald Trump.

"Muitos julgaram que as dantescas imagens do Capitólio, impensáveis numa democracia de dois séculos, Trump acabaria preso ou, pelo menos, proscrito pelo partido republicano. Nem uma nem outra coisa aconteceu. Conseguiu, por nunca ter reconhecido expressamente a sua derrota, que se instalasse a convicção, em metade dos eleitores republicanos, de que Joe Biden teve uma vitória fraudulenta mas, acima de tudo, não só não foi rechaçado pelo partido de Lincoln como conseguiu torná-lo seu refém", afirmou.

Esta terça-feira, os EUA votam "para eleger o Congresso, um terço do Senado e 36 governadores, além de outras eleições estaduais", com grande parte dos candidatos republicanos a reiterar que as eleições de 2020 foram roubadas ou a questionar a sua legitimidade.

"Só um terço aceita expressamente o resultado das últimas presidenciais. Esta é, ainda antes das eleições de hoje, a grande vitória de Donald Trump. Nas primárias republicanas, os seus apoios foram confirmados pelos eleitores. É bom recordar que há dois anos foram os republicanos do Arizona e da Geórgia a recusarem-se a obedecer às ordens do Presidente e a validarem resultados eleitorais legítimos. Eles próprios eram eleitos. Basta que os candidatos da big lie reforcem o seu poder agora para, da próxima vez, o golpe ser possível. Ao contrário do Brasil, não haverá um Supremo Tribunal eleitoral independente para resistir ao golpe", defende Daniel Oliveira.

Enquanto o Brasil tem "uma contagem rápida que não dá tempo para que se instale a confusão", os EUA têm "um sistema caótico", que varia de Estado para Estado e de Condado para Condado. E as diferenças continuam na luta contra a desinformação.

"No Brasil, a justiça não teve medo de agir contra a desinformação, correndo risco de alguns excessos que podem ser reduzidos por quem lhe siga o exemplo. Já os EUA, preparam-se para entregar as nossas democracias à vontade do senhor Elon Musk. Tudo isto levou o New York Times a escrever, há três dias, que a democracia norte-americana devia olhar para o exemplo brasileiro porque, ao contrário dos EUA, o Brasil aprendeu com o Capitólio e preparou-se para o pior. Não há um limite natural à tolerência dos cidadãos perante o abuso. A história devia ensinar-nos isso. Esse limite é imposto pela lei e pelo consenso construído pela sociedade. Quando se permite que alguém com poder o ultrapasse, é muito difícil voltar a traçar a linha vermelha que entretanto foi apagada", sublinha o jornalista.

Daniel Oliveira considera que as democracias ocidentais não estão em perigo apenas por os políticos de extrema-direita terem vencido várias eleições, mas sim porque as fronteiras que as tornaram possíveis foram ultrapassadas sem consequências.

"A de todos se comprometerem a aceitar o vencedor de eleições limpas é só uma das mais básicas. Em nome da paz social, as instituições democráticas tiveram medo de punir quem as pôs em perigo. Não à arraia-miúda, mas quem liderou", afirma.

Por fim, o jornalista sublinha que, em nome da sua própria reeleição, os políticos republicanos deixaram que "alguém sem qualquer respeito pela democracia", fizesse deles reféns.

"Sem a aceitação das suas regras, a democracia é uma farsa e é por isso que, como em qualquer jogo, a condição para participar é aceitar, à partida, as regras desse jogo. Quando os batoteiros que viram o tabuleiro na hora da derrota não são desclassificados, o jogo deixou de fazer sentido. Hoje, a democracia norte-americana poderá pagar o preço da sua tibieza porque essa é a mensagem que passou aos seus inimigos: a de que aceita ser fraca perante o abuso dos que se julgam acima dela", acrescenta.

*Texto redigido por Cátia Carmo

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