As taxas de juro e os sociopatas

Daniel Oliveira fala sobre o novo "brutal" aumento das taxas de juro pelo Banco Central Europeu. São 0,75 pontos, que "rapidamente se sentirão como rolo compressor na economia e nas famílias com crédito à habitação". O cronista relembra que, em Portugal, "ao contrário dos países mais fortes da União, como Alemanha, França, ou Holanda", domina "a taxa variável e não a fixa no crédito à habitação".

"A presidente do Banco Central Europeu diz que o objetivo é reduzir a procura, mas foi a mesma Lagarde a explicar, há uns meses, que se a causa da inflação está sobretudo na oferta e nos preços da energia, o combate à inflação seria para outros, não para os bancos centrais, e que o regulador e as taxas de juro pouco podem nesta crise. Ou seja, não acredita no que a Alemanha, histérica com a inflação, a está a obrigar a fazer", diz Daniel Oliveira no seu espaço habitual de Opinião na TSF.

Para o jornalista, "a pergunta é se alguém, além dos dogmáticos que aplicam sempre a mesma receita em contextos muito diferentes e não percebem as diversas naturezas das inflações europeia e norte-americana, acredita nesta corrida para o abismo".

"Não há um sobreaquecimento da economia europeia. Este aumento só terá efeito, por isso, quando criar um tal estrago na economia, que se reduz à procura de energia e bens essenciais para níveis mais baixos do que o normal. Ou seja, só cumprirá a sua função se provocar uma recessão na Europa. Não se trata apenas de tirar liquidez à economia. Os dogmáticos estão preocupados com o desemprego demasiado baixo que tende a equilibrar o poder negocial entre patrões e trabalhadores e fazer com que os salários acompanhem a inflação como todos os outros restantes custos. Mas quem tem o poder de impor as regras prefere que sejam os trabalhadores a carregar o fardo da inflação, transformando este momento em mais uma oportunidade para transferir rendimento do trabalho para o capital", defende.

Daniel Oliveira considera que para diminuir a pressão sobre os salários, "a oferta de emprego tem de voltar a ser menor do que a procura". Para isso, segundo o cronista, "é preciso atirar milhões de europeus para o desemprego".

"O aumento do desemprego é um dos objetivos das chamadas 'políticas anti-inflacionistas'. Da mesma forma, não haverá qualquer vontade em apoiar quem perca rendimento por causa do aumento das prestações da casa. Para além da tentativa de retirar liquidez à economia, um bónus deste aumento é saber-se que um cidadão comum não quer falhar na sua prestação, o que quer dizer que lhe sobra menos dinheiro para consumir, incluindo bens essenciais, ajudando assim a baixar a procura", sustenta.

Daniel Oliveira sublinha que Lagarde diz que "é preciso reduzir a procura", apesar de já ter dito que "não havia qualquer problema na procura". "Reduzir a procurar quando se tem um baixo crescimento económico só se faz de uma forma: atirando milhões de europeus para a pobreza. E é exatamente esse o objetivo. Não é sadismo, mas também não é uma mera consequência involuntária e inevitável. É um instrumento. Porque somos liderados por sociopatas que têm sobre qualquer outro decisor a vantagem de não responderem perante a vontade popular", respondendo apenas "aos caprichos de quem nunca quer ficar a perder neste jogo".

"Quem vende esta inversão de poder político como ciência não está a fazer mais do que política. Como as autoridades europeias recusam políticas robustas de controlo dos preços, que se exigiriam num momento de emergência como este, preferem destruir a economia europeia", atira o jornalista.

Daniel Oliveira refere que os decisores europeus "não dependem de qualquer sufrágio direto" e, por isso, "como bons burocratas, tendem a ignorar as consequências políticas das decisões".

"As democracias, e até as ditaduras, são dinâmicas. Toda a ação provoca uma reação, como deveríamos ter percebido com o crescimento da extrema-direita na Europa e nos EUA, depois da última crise financeira. Ao contrário do que reza o mito, Hitler não chegou ao poder por causa da hiperinflação. Essa aconteceu no início dos anos 20, uma década antes. Aliás, depois dela o partido nazi não passou dos 3% em eleições. Foi depois das políticas de austeridade para conter a inflação, antes e depois da depressão de 1929, com a deflação e a explosão do desemprego, que a extrema-direita subiu exponencialmente na Alemanha", recorda.

"Foi a austeridade, que teimam em tratar como remédio para perigos políticos da inflação, que matou o doente. Sigam o mesmo caminho e verão o mesmo resultado. Mesmo quem defende este dogma económico sabe que o ritmo destes aumentos não é ditado pela racionalidade, mas pela histeria. Porque acima dos sociopatas estão os políticos e esses são, neste momento, baratas tontas no meio de uma tempestade perfeita. Basta perceber que temos políticas orçamentais contraditórias com o aumento das taxas de juro para perceber as maravilhas da independência de um banco central, que nem sequer corresponde a um espaço político. As vitimas deste experimentalismo absurdo serão as de sempre: os cidadãos europeus", finaliza.

Texto redigido por Carolina Quaresma

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