Costa deixa cair Cabrita quando Cabrita é um problema para Costa

Daniel Oliveira acredita que "ninguém quer passar por aquilo que passou Eduardo Cabrita: estar num carro que põe fim a uma vida humana". Vincando que "o sofrimento daquele trabalhador", atropelado na A6, é "certamente maior, e só nos pode merecer mais atenção e solidariedade", o jornalista lembra que tal "não legitima a rapidez com que milhões de dedos apontaram para quem ia no carro e conseguiu: não foi criminalmente acusado".

O cronista, no seu espaço habitual de Opinião na TSF, admite ter tentado manter uma postura "cautelosa, durante toda esta novela".

"Este ministro sempre teve um problema que torna muito difícil a empatia com o seu sofrimento: a sua própria falta de empatia", analisa Daniel Oliveira. Uma característica que "ficou evidente quando [o governante] conseguiu ficar em silêncio durante oito meses, depois da morte de um cidadão ucraniano, às mãos das autoridades que ele tutela".

O jornalista critica que Cabrita nada tenha dito à família que, "independentemente das responsabilidades criminais do estado português, merecia ter ouvido, nos dias seguintes, uma palavra solidária de um responsável político". A falta de empatia voltou a ser notória quando, como conta Daniel Oliveira, "logo depois da morte de Nuno Santos, [Cabrita] mandou publicar uma nota em que tentou responsabilizar a vítima".

"Nessa altura, não se preocupou com o respeito pela investigação, ignorando que as forças que ele próprio tutela estariam envolvidas na recolha de provas, e que qualquer palavra sua poderia ser vista como uma forma de as condicionar."

A ausência de empatia repetiu-se ainda noutra ocorrência, nota o jornalista: "Quando, usando o álibi do respeito pela investigação, que já tinha ignorado, em sua própria defesa, não teve uma palavra para a família da vítima, um gesto que nos fizesse perceber que o ligava ao trabalhador que morreu qualquer coisa de humano, além da urgência de se salvar."

Daniel Oliveira aponta também que este traço de personalidade "foi evidente, na hora da despedida, quando Eduardo Cabrita não se lembrou de dirigir, mais uma vez, uma palavra de conforto para a família da vítima, que vive um drama bem mais profundo do que o fim de carreira política de um ministro".

"Nem para o seu motorista, um homem que o acompanha há anos, assombrosamente, nada... Revelando, mais uma vez, uma desconcertante desumanidade, Eduardo Cabrita dedica as últimas palavras como ministro ao autoelogio."

O cronista interpreta também que, "no meio de tudo isto, há um responsável político pela situação insustentável deste ministro, deixado a apodrecer na sua cadeira". A demissão de Eduardo Cabrita é tardia, argumenta o jornalista. "Deveria ter acontecido quando ficou calado durante tanto tempo no caso do SEF, mas não dava jeito a Costa, apesar de ser evidente que não poderia ser este homem a dirigir a reforma do próprio SEF. Deveria ter acontecido depois, não porque Cabrita fosse responsável pela morte de Nuno Santos, mas por ser evidente que não lhe sobrava qualquer força política, moral ou humana para cumprir a sua função."

Antes das autárquicas e do Orçamento, sublinha Daniel Oliveira, a demissão do ministro da Administração Interna "não dava jeito a António Costa", tendo-se mantido no cargo "como um zombie deprimido, um caco humano e político".

"Quem faz isto a um amigo", indaga o jornalista. "É com a acusação, que de facto iliba Eduardo Cabrita, que António Costa lhe mostra a porta da rua, explicando que ele enviou uma mensagem e ele respondeu 'sim, senhor'."

Daniel Oliveira fala de uma "frieza assassina", que não acontece "porque as responsabilidades do ministro, que há uns meses era excelente, se tenham agravado". Aliás, aclara o cronista, "o Ministério Público não o menciona". A demissão também não ocorre porque o governante não tem "força política para cumprir a sua função", já que "restam dois meses de mandato, e essa força tornou-se irrelevante".

"Foi o próprio Eduardo Cabrita que explicou por que sai agora, dizendo: 'Não posso permitir que o aproveitamento político seja utilizado no atual quadro para penalizar a ação do Governo, contra o primeiro-ministro ou mesmo o PS.'" As declarações em que admite que a decisão não partiu do próprio, mas de António Costa, desvelam a resposta "quanto ao timing desta demissão", conclui o cronista. "António Costa não podia permitir que, no atual quadro eleitoral, Cabrita o prejudicasse, e aceitou que a agonia política e humana de um ministro em funções prejudicasse o país e a política. Até aceitou que prejudicasse o seu amigo. Só quando achou que o ia prejudicar a ele, no preciso dia em que Cabrita foi ilibado de responsabilidades criminais, é que decidiu agir."

O que Daniel Oliveira constata é que existiu, por parte de Costa, "cálculo eleitoral" e "aproveitamento político".

"Por envolver um caso tão trágico, revela a mesma desumanidade que me assombra em Eduardo Cabrita, e um traço de Costa que talvez ajude a explicar parte da crise política que vivemos: os critérios das suas decisões esgotam-se nos interesses políticos da sua própria pessoa. Nem os amigos escapam."

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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