Lavrov no Cairo e Macron em Bissau!

Parece mesmo que regressámos à guerra fria, com "o primeiro e o segundo mundos" em ambiente de "paz impossível, guerra improvável", entremeadas com missões diplomáticas de ambos ao "terceiro mundo", para garantir alianças e delinear estratégias de boicote ao próximo. Por isso, o MNE russo Lavrov foi a passada semana defender a reputação da Rússia enquanto defensora de África, pelo Egipto, República Democrática do Congo, Uganda e Etiópia. O Presidente francês efectuou o mesmo, praticamente em simultâneo, mas nos Camarões, Benim e Guiné-Bissau, precisamente com o intuito destes países e África Ocidental, não caírem no "canto da sereia" russo, como aconteceu recentemente com o Mali e o Burkina Faso. Os Camarões, com fronteira com a Nigéria (Boko Haram), a República Centro Africana (país com presença de tropas russas) e o Benim, cuja fronteira norte com o Burkina tem visto os jihadistas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico descerem para sul, em sucessivos ataques terroristas, cujo objectivo será o de conseguirem abrir caminho para chegarem ao mar, ponto de fuga e entrada, através do já problemático Golfo da Guiné. É fundamental para a França que a África Ocidental não caia na órbita russa. Quanto à "nossa Guiné-Bissau", a presença de Macron teve um "olho nos russos e outro nos portugueses", já que não são de agora as ambições francesas em pintar a tricolor todo o espaço de Saint Louis a Conakri. De tal forma, que o esquema do "beija-mão diplomático" está instituído de forma a que Bissau necessite primeiro do ámen de Dakar, que necessita do de Paris, em simultâneo com o ámen de Lisboa. Por outro lado, verdadeiramente a ganhar ficou o Presidente Embaló Sissoko, da Guiné-Bissau, que no contínuo ruido sobre a sua legitimidade constitucional, se vê legitimado desta forma presencial ao mais alto nível e televisivamente, já que na tabanka, se passou na televisão, então é porque é verdade!

Marrocos: Festa do Trono e Ano Novo Islâmico

No Sábado 30, celebraram-se 23 anos de entronização de Mohamed VI enquanto Rei de Marrocos e Líder dos Crentes, sem a pompa habitual. As cerimónias oficiais foram adiadas, tendo o covid como motivo oficial, mas havendo vários motivos oficiosos para esta decisão. Fica como nota principal e como sempre, o discurso do monarca. Dois pontos essenciais neste que é um exercício anual de quase "estado do reino". A difícil relação com a vizinha Argélia e a necessidade de se normalizarem, a bem de todos, Magrebe, África e Europa e cujo foco para tal foi de novo colocado na disponibilidade marroquina em abrir a sua fronteira terrestre oriental com a

Argélia, fechada desde 1994. Em plena Primavera Árabe, surgiu a ideia da reabertura desta fronteira, tendo como cerimónia inaugural a Volta a Marrocos em Bicicleta, que começaria na Argélia e na primeira etapa cruzaria o tal posto fronteiriço de Oujda. No actual momento de "paz fria" entre estes vizinhos, uma qualquer iniciativa desportiva ou cultural neste contexto de quebra-gelo, será obrigatória para envolver ambos os povos e lhes devolver o sentimento de pertença, reforçando o ponto de que em pouco ou nada são diferentes e que não será uma linha política lhes poderá dividir os corações, os/as primos/as, o couscous!

Outro foco do discurso do Rei, foi a "Moudawana", o Código da Família, que em 2004 foi revisto e que curiosamente na prática, por via das ambiguidades, reforçou o poder dos homens. Está na hora de efectuar esta correcção de tiro e devolver às mulheres paridades básicas, como o direito aos filhos!

Assinalar também que o pôr-do-sol de sexta-feira 29 marcou o início do Novo Ano Islâmico, com o 1º de Muharram de 1444 da Hégira. Data pouco "badalada" por imposição dos mais ortodoxos, que dizem e impõem que o Profeta não era de festas, não celebrando nem esta data nem a do seu aniversário. Este é mais um dos exemplos simples de que o Islão se encontra refém dos mais velhos/conservadores, não permitindo certas publicidades que até lhes seriam benéficas. Apresentar comunidades muçulmanas em festa, em tudo contribuiria para a normalidade e normalização de relações e considerações. Feliz Ano Novo à Ummah, a Nação do Islão!

A Acontecer / A Acompanhar

O Novo Oásis, trata-se de um espaço montado num hotel de 5 estrelas de Lisboa, a descobrir por si, o qual durante este Verão apresenta uma tenda para disfrute dos aromas, sabores e cores do Médio Oriente. Oriente-se, em Lisboa e descubra onde se encontra!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo/Arabista www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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