Não podes querer um mundo melhor se não viveres como se já lá estivesses?

Daniel Oliveira está solidário com os jovens que esta semana protestam através da ocupação de escolas e universidades em Lisboa para exigir o fim dos combustíveis fósseis até 2030, e diz sentir "vergonha" de quem, na sua geração, questiona a legitimidade do movimento.

"Parece que todas as gerações estão condenadas a esquecerem-se de si mesmas", lamenta o jornalista no seu espaço de opinião habitual na antena da TSF.

"Ver tantos que vibraram com a crise académica de 62, com maio de 68, com a explosão de liberdade depois do 25 de Abril ou com as lutas estudantis da minha geração - a que a anterior chamou "rasca" - a escarnecerem de uma luta que é indiscutivelmente justa, faz-me regressar a uma canção de Jacques Brel: em 'Les Bourgeois', retrata três jovens amigos que insultavam velhos burgueses e que acabam eles próprios chegados a velhos a queixarem se à polícia de jovens que lhes repetiam os mesmos insultos."

Em comentários nas redes sociais e artigos de jornais, muitos usam argumentos "infantis" para condenar os ativistas pelo clima. Se exigíssemos que todos os ativistas tivessem eliminado os combustíveis fósseis completamente da sua vida, os movimentos teriam "três pessoas", o que seria "ótimo para as petrolíferas", ironiza.

"A contrário do que acreditam os mais liberais, as mudanças sociais não resultam da mera soma de escolhas individuais (...) Perante o capitalismo desregulado, não se mundo ao mundo vivendo fora dele", reforça.

"Muito teria de já ter mudado para estes jovens não serem acusados de hipocrisia", aponta Daniel Oliveira. "Para não usar carro era preciso que as cidades estivessem preparadas para uso exclusivo de transportes públicos ou outros meios, que os pais desses jovens não tivessem sido expulsos para longe do lugar onde trabalham, que as cidades não fossem ativos financeiros, mas lugares para viver. Para não usar aviões, era preciso que a Europa, incluindo Portugal, estivesse ligada em redes ferroviárias de velocidade rápida. Para ter um consumo consciente, era preciso que existisse uma produção consciente e acessível a quem não é rico."

Para mudar a forma de organização económica, social e urbano em que vivemos, "a pressão destes jovens é indispensável", defende o comentador. Foram eles, "e não repetidos avisos dos cientistas", que puseram o clima na agenda dos políticos. E "são eles que têm que viver com os efeitos da nossa negligência".

E para quem argumenta que as exigências dos movimento Greve Climática Estudantil não são razoáveis nem exequíveis nos prazos exigidos, Daniel Oliveira lembra: "os protestos não servem para governar e não são miúdos 17 ou 20 anos que nos darão as respostas políticas e técnicas", mas "puxam para o lado contrário de todos os outros interesses", e por isso mesmo merecem a solidariedade de todos.

"As pessoas com a minha idade acham que isto já não vai chegar a elas e é confortável o cinismo quando se acha que não se pagará pelas suas consequências. Só que até nisso estão enganados."

Texto: Carolina Rico

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