No Brasil, o mais difícil ainda está para vir

A polarização das eleições brasileiras é o tema em destaque no espaço de opinião de Daniel Oliveira na TSF, esta terça-feira. O jornalista começa por recordar uma "primeira volta que mais pareceu uma segunda", com Lula da Silva e Jair Bolsonaro a concentrarem mais de 90% dos votos.

"A segunda volta será decidida a régua e esquadro. Lula ficou a dois pontos percentuais da eleição direta e esses votos podem vir dos eleitores de Ciro Gomes ou de Simone Tebet que estão mais distantes de Bolsonaro", considera Daniel Oliveira.

O jornalista prevê que cada lado tente aumentar a taxa de rejeição do adversário entre aqueles que rejeitaram os dois candidatos e que Bolsonaro corra "mais riscos", sem assustar os indecisos.

"Deixará grande parte do trabalho sujo para o submundo das redes, mas a sua tarefa não será fácil. Será um mês a caminhar sobre o fio da navalha no meio de muita desinformação e ódio", afirma.

Recordando que Bolsonaro, há um ano, disse que só havia três alternativas para o seu futuro - "a vitória, a prisão ou a morte" -, Daniel Oliveira considera que este candidato está disposto a tudo para não sair do poder, mesmo que Lula vença as eleições. Uma vitória que poderá ser "apenas o começo de um longo calvário".

"Algumas das principais figuras do bolsonarismo foram eleitas para o Congresso e para o Senado e o seu partido reforçou-se na direita brasileira. Como o trumpismo, o bolsonarismo, com ou sem Bolsonaro, veio para ficar e esse será, em caso de vitória, apenas um dos problemas de Lula", alerta Daniel Oliveira.

Em caso de vitória, Daniel Oliveira considera que Lula da Silva terá uma tarefa quase impossível: "reconciliar o Brasil".

"Uma reconciliação que é contraditória com outras tarefas urgentes porque também foi o excesso de conciliação que corrompeu politicamente o PT no passado. Depois de passar várias eleições a tentar convencer os brasileiros de que era preciso operar uma mudança radical no país, Lula dirigiu em 2002 uma carta ao povo brasileiro. Era o compromisso necessário para que as elites económicas tolerassem a chegada de um operário socialista ao poder", recorda o jornalista.

Além disso, o cronista lembra que o preço que Lula pagou por essa estratégia não foi baixo, uma vez que não fez "qualquer mudança estrutural na economia extrativista brasileira" e as alianças não o deixaram mexer num sistema político "que torna impossível governar sem comprar deputados".

"O mensalão foi a institucionalização da forma como se governa um país com um sistema que boicota maiorias minimamente coerentes e promove a proliferação de partidos sem identidade. Enquanto os preços das matérias-primas o permitiram, Lula distribuiu melhor a riqueza, sem incomodar ninguém. 'Do banqueiro ao trabalhador, todos ganharam dinheiro comigo', disse. Como o sistema político e económico que favorece a corrupção se manteve intacto, o PT corrompeu-se. Nem mais nem menos do que os antecessores ou sucessores, mas causando mais choque por causa das expectativas", afirma.

Em jeito de retrospetiva, o jornalista regressa mais uma vez ao passado para recordar que quando veio a crise económica, também a ex-Presidente Dilma Rousseff teve de lidar com "os pecados e omissões do passado".

"A economia era a mesma de sempre, os interesses estavam intactos e reagiram ao mínimo de exigência na partilha de sacrifícios. A segunda parte do golpe foi a prisão do único candidato de esquerda que poderia vencer as eleições. Michel Temer, vice-presidente levado ao poder por Dilma, tomou o Palácio do Planalto, impôs as medidas de austeridade e devastou o centrão que representava. Sem Lula e sem a direita tradicional, no meio de uma crise profunda, o caminho ficou aberto para quem gritava mais alto. Para tentar derrotar Bolsonaro, Lula teve de repetir a mesma estratégia: não apresenta um programa político claro para não assustar eleitores e apoios e fez uma aliança com inimigos, pondo um aliado no impeachment de Dilma e da sua própria prisão como vice-presidente", lembra Daniel Oliveira.

No entanto, o cronista considera que atualmente "já ninguém tem ilusões". No Brasil, todos sabem e aceitam a estratégia de Lula. Mas, ao contrário de 2002, em caso de vitória Lula terá uma diferença no seu mandato: uma situação económica internacional pouco favorável.

"Não vai ser possível pôr banqueiros e trabalhadores a ganharem e será necessário fazer escolhas. Escolhas que os aliados e os poderes, que deixaram Lula regressar ao poder, nunca aceitarão, ou seja, é a base original de apoio a Lula que terá de ir para as ruas fazer exigências aprendendo com o passado. Quando saem da rua, ela fica entregue à extrema-direita", defende o jornalista.

Recorrendo ao exemplo dos EUA, Daniel Oliveira recorda o mandato do "impopular" Joe Biden e o que está a acontecer ao Partido Republicano no país, que prova que não bastou derrotar Donald Trump nas eleições para que o trumpismo deixasse de ser um perigo.

"Se as causas que o levaram ao poder se repetem, repetem-se, mesmo com variações a outros protagonistas, as consequências. Arrancar Bolsonaro do poder para salvar a democracia será difícil, como se está a ver. Conseguir que isso aconteça sem uma reação violenta, também. Mas o que é realmente difícil virá depois. Agora é derrotar Bolsonaro. Assim estamos, com um problema de cada vez", acrescenta.

Texto redigido por Cátia Carmo

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