O equívoco romeno

Num tempo em que se atiram factos "dispersos na cara dos adversários" e não se aprofunda "o que esses factos realmente nos dizem", Daniel Oliveira afirma que "há quinze dias que a Roménia se transformou na prova de que temos tido governos incompetentes e corruptos".

"Não nego que tem havido incompetência e que há corrupção, mas quem acompanha a política romena saberá que dificilmente é nesses dois fatores que eles se distinguem positivamente de nós", diz Daniel Oliveira no seu espaço habitual de Opinião na TSF.

"O facto apresentado resume-se a isto. O PIB per capita dos romenos deverá ultrapassar o português em 2024. Na realidade, com quase o dobro da população, a Roménia tem um PIB que em 2021 não estava muito acima do português. O rendimento per capita romeno é quase metade do de Portugal. O que está em causa é o PIB per capita em paridade de poder de compra. Vamos ignorar que a Roménia está a viver nestes 15 anos o mesmo fenómeno que nós vivemos na segunda metade dos anos 80 e dos anos 90, o impacto da entrada na União Europeia, com enorme investimento em infraestruturas básicas", explica o jornalista.

Daniel Oliveira considera que "apesar de apenas uma previsão - ela própria discutível -, o PIB mede a riqueza das nações, não mede a riqueza dos povos".

"Há países com o dobro do nosso PIB per capita, onde nenhum pobre ou remediado gostaria de viver. A verdade é que o nosso índice de desenvolvimento humano continua acima do romeno, sem sinais de vir a ser ultrapassado. A Roménia, que nos querem dar como exemplo, tem mais cinco por cento de população a viver em pobreza do que Portugal e ela é bem mais severa, e tem menos quatro anos de esperança média de vida. As políticas que tem seguido, para garantir o seu crescimento, não têm combatido a desigualdade, quer social, quer territorial. Tem um péssimo sistema de saúde e, ao contrário de outros países de leste, um mau sistema educativo", diz o cronista.

E continua: "É que os pobres não comem PIB per capita. Como ouvi de Paulo Pedroso, que trabalhou na Roménia ao serviço da UE, nem os pobres, nem a classe média portuguesa, gostariam de lá viver. Seria normal que o país que é agora dado como exemplo fosse atrativo para muitos, mas estranhamente a Roménia perdeu quase 20% da sua população nos últimos 30 anos."

Daniel Oliveira defende que "para o bem e para o mal", a Roménia está perto do centro económico da Europa, nomeadamente a Alemanha, "para quem produz componentes para a sua indústria automóvel".

"E isso tanto serve para exportar produtos, como para exportar pessoas. Na economia, a geografia conta muito, sempre contou. E para nós passou a contar muito mais, quando há duas décadas a UE começou a alargar-se para leste e adotou o euro, que concentrou a riqueza na Alemanha, com o brutal prejuízo para os países periféricos do sul. Primeiro, e ao contrário do que pensamos, os países de leste tinham vantagens competitivas sobre nós, a Roménia menos do que outros. Não só tinha existido alguma industrialização, com os seus níveis de qualificação eram muito superiores aos nossos. Depois, a Roménia ainda não aderiu ao euro. Parece que é possível crescer na Europa sem estar na moeda única, tendo uma moeda que desvalorizou quase 40% face ao euro nos últimos 15 anos é, na realidade, ainda mais fácil exportar para a Europa."

O cronista refere que debatemos as políticas socialistas, os impostos e a corrupção para explicar "duas décadas de estagnação", mas "nunca debatemos o que realmente aconteceu no início deste século, porque isso nos dá uma sensação insuportável de impotência".

"Não foram políticas diferentes das que tinham sido seguidas no passado ou a chegada dos socialistas ao Governo, que lá tinham estado antes. O país até liberalizou mais a economia e as leis laborais, a corrupção não é maior do que antes. O que aconteceu foi uma mudança radical na Europa e essa é a parte que ainda não percebemos. Hoje o que conta no nosso futuro é determinado longe daqui. Somos gestores de escolhas estruturais que foram feitas na Europa e em que nós participámos dispensando-nos de ter opinião própria", sustenta, sublinhando que as taxas de juro, as políticas cambiais e as reformas que "podemos ou não fazer são determinadas por outros ao sabor dos seus próprios interesses".

"Os que estão perto do grande vencedor, que é a Alemanha, ganham algumas migalhas da sua prosperidade, os outros nem por isso. E se a UE alargar à Ucrânia, a estocada será final e fatal. Claro que podem continuar a debater políticas e economia como quem debita tiradas de livros de autoajuda, como se a força de vontade pesasse mais do que as condições objetivas que sempre determinaram a história dos povos. E numa coisa terão razão: a culpa será sempre nossa, fomos nós que preferimos ser bons alunos a uma democracia soberana, responsável pelas suas próprias escolhas. Quem se põe numa posição subalterna não se pode queixar das escolhas que se demitiu de fazer, mas nada disto muda um facto: a Roménia dada como exemplo por quem nunca iria para lá viver. Porque sabem que o PIB per capita diz menos do que parece", conclui.

Texto: Carolina Quaresma

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