O Irão já não é Persa!

Sazonalmente, em média a cada dois anos, o actual Irão das virtudes e dos bons costumes volta aos noticiários por razões que no limite, nos confortam pelo facto de sermos portugueses e de vivermos no país mais livre do Mundo (o que me obriga a abrir aqui este "pequeno parêntesis" em jeito de tributo àqueles/as que conheço e que se encontram na prisão por uma caricatura ou uma simples linha publicada nas respectivas redes sociais. Piadas que se transformam em pesadelos, por terras onde rir também é pecado. Uma vez, no lóbi de um hotel no Cairo, a recepcionista veio ter com o grupo de portugueses onde me encontrava inserido, para nos pedir que "ríssemos à vontade, mas baixinho"! Conseguem imaginar as nossas caras e a gargalhada subsequente ainda mais barulhenta? E a cara da zelosa recepcionista quando percebeu que com "tugas" não iria a lado nenhum? Depois ainda há as outras e os outros que com cara mais fechada, sem risos, lutam contra as incongruências dos códigos civis e penais que estabelecem legalmente as diferenças entre sexos, nas liberdades, nas oportunidades, nas heranças e nas clausulas de salvaguarda que protegem sempre o violador colocando o ónus na violada, pela forma como se veste, como anda do verbo andar e como "anda do verbo acompanhar"! O meu respeito a todos/as aqueles e aquelas que se disponibilizaram a "queimar as próprias asas" para os outros poderem voar mais alto).

O Irão já não é Persa, porque a Pérsia de Ciro, de Dario ou do tão apreciado "Xerxes de Hollywood" foi superior porque tudo o que conquistou não destruiu, antes preservou, fossem construções, fossem as línguas dos conquistados. Preservou-as, aprendeu com elas, integrou-as, ganhou-lhes as mentes e os corações e ganhou a dimensão daquilo que poderia ser hoje, uma colossal potência cultural. Ao invés disso, no "confronto civilizacional" permanente entre o campo e a cidade, foi-se tornando numa potencial potencia nuclear, forma de ter uma voz no xadrez mundial. Esta realidade também serve de metáfora/imagem da regressão do Mundo e das sociedades modernas. Quem paga manda, sempre assim foi, mas a opção da compra define a estratégia e os objectivos. O Irão dos ayatollahs insiste na compra do urânio (para o nuclear), enquanto o Irão dos persas comprava (no sentido em que a conquista representa uma despesa/investimento) as culturas vizinhas, acrescentando mais uma camada à sua cada vez mais densa "cebola cultural".

Em conclusão daquilo que vimos nos telejornais na última semana a propósito da morte de Mahsa Amini, nome e figura de quem ninguém se lembrará na próxima semana, o Irão dos Ayatollahs sobrevive e sobreviverá, enquanto O Livro (religioso) se sobrepuser aos livros da escola e isto não se trata de um dilema, antes uma opção consciente que emana da lógica da conquista e manutenção do Poder. Também serve para o Islão aquilo que o nosso Saramago disse sobre os cristãos/católicos, "quando a Igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controlo, não tanto das almas, porque à Igreja não importam as almas, mas dos corpos".

Olaf Scholz de visita ao Golfo Pérsico

Apeteceu-me escrever "Anita vai de fim-de-semana ao Golfo Pérsico", mas o Chanceler alemão não merece já que se trata do principal alavancador de Sines e do seu potencial enquanto uma das principais soluções para a independência energética da Europa. Aliás, a visita deste fim-de-semana de Scholz à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e ao Qatar, vem confirmar a perspectiva mais adequada para a Europa do pós-guerra da Ucrânia, a qual também partilho e que passo a explicar. Sines não vai ser "A Solução" para a Europa, porque esta não pode estar dependente de um único ponto de distribuição, da mesma forma que não pode estar dependente de um único fornecedor. É isso que Scholz anda por estes dias a fazer, um "estudo de viabilidade" como se diz em Moçambique, para perceber quem pode substituir o fornecimento russo, sem nos tornarmos reféns de um único fornecedor. É nesta competição global que Sines está inserida, estando aqui este complexo energético português dependente das nossas "artes" para o situar nesta competição, o que abre as portas a fazermos do "eterno elefante branco" um "tubarão branco" no topo da cadeia alimentar, que por sua via nos dará a perspectiva de termos saído da "cauda" para a "cabeça de Europa". A minha dúvida é a importância e influência que o "pandémico pessimismo luso" terá neste processo!

A Acontecer / A Acompanhar

- Cursos de Língua Árabe 2022/23, Casa da Cultura Luso-Árabe e Mediterrânica do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, com informações/inscrições através do mail silveslusoarabe@hotmail.com

Raúl M. Braga Pires é autor do site Maghreb-Machrek, é Politólogo/Arabista e escreve de acordo com a antiga ortografia

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