O melhor é levar o gás em botijas a Berlim

Confesso que me surpreendeu a rapidez com que os governos português e espanhol reagiram à proposta de redução em 15% no consumo de gás. Uma proposta apresentada pela Comissão Europeia, com o objectivo solidário de ajudar os países do centro da Europa a ultrapassarem a excessiva dependência do gás russo.

Percebi um certo gozo nesta resposta, como se os frugais agora fossemos nós, povo ibérico um dia insultado por gastar dinheiro em vinho e em mulheres. Não ouvi, mas imaginei ter ouvido João Galamba a dizer aos alemães para pegarem no dinheiro que andaram a poupar com o gás russo e fretarem uns barcos com o gás ao preço que nós o compramos.

É possível que seja impressão minha, mas esta manifestação de arrogância não fica bem a povos que estão tantas vezes de mão estendida. Se eu fosse alemão, perante a resposta de Madrid e Lisboa, explicava a estes durões que não há problema nenhum e cada um passa a tratar da sua vida. A começar pela dívida soberana. Até íamos levar o gás em botijas a Berlim. Para o caso de essa vir a ser a solução, informo o Estado português que tenho de sobra do inverno botija e meia de gás que cedo solidariamente.

Quer-me parecer que falta ambição a este povo ibérico, que um dia se fez ao mar e deu novos mundos ao mundo. Perderam o jeito para o negócio. Poderiam ter respondido com elegância, sugerindo que tudo fariam, até ao limite do possível, para poupar no gás. Que sim senhor, que solidariedade se paga com solidariedade e que ainda temos bem fresca na memória a iniciativa da mesma Comissão Europeia que comprou vacinas para todos, medida sem a qual ainda andaríamos a disputar com o terceiro mundo as vacinas que restassem.

Regressemos ao tal negócio que já devíamos estar a propor-lhes. Podíamos até aparecer como salvadores, como aqueles que definitivamente iam livrar a Europa do gás russo. Bruxelas só tinha que passar os cheques para preparar nos nossos portos a chegada do gás da América e de África, que nós nos encarregamos de fazer chegar ao resto da Europa num grande gasoduto que substituísse os canos que existem agora nos Pirinéus e que nunca permitiram que Portugal e Espanha fizessem parte da União Europeia da Energia. Desta forma, mostraríamos aos frugais que não somos todos iguais. Ou somos?

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