Os 50 graus dos chalupas

Podemos e devemos limpar os terrenos para não dar ao fogo o melhor pasto. Podemos e devemos fazer um melhor ordenamento do território e apostar ainda mais na descentralização da sua gestão para evitar erros no interior do país provocados por decisões tomadas nos palácios de Lisboa. Podemos e devemos dar mais meios e melhores retribuições aos bombeiros voluntários para os ter mais motivados num combate que é de todos. Podemos e devemos ter tolerância zero com o desleixo e mão pesada com os incendiários para evitar que tantos fogos comecem no mesmo dia. Podemos e devemos não dar descanso à corrupção que possa existir na aquisição de meios ou material de combate para evitar desperdício de dinheiro que tanta falta faz ao país.

Podemos e devemos fazer tudo isto, mas se no fim alinharmos com os chalupas e começarmos a negar as evidências, estaremos apenas a trocar as brasas por um forno, que de igual forma destruirá o meio ambiente e com ele a vida de muita gente. Bombeiros e forças de segurança, sempre com a memória de 2017, tudo fazem, e bem, para salvar a vida de pessoas. Essa é, e tem de ser, a prioridade. Mas por estes dias ainda não estão a ser contabilizadas as mortes provocadas por excesso de calor e um dia vamos ter de falar disso.

Os chalupas repetem que sempre houve calor no verão, que sempre houve ondas de calor, que sempre houve incêndios. O que os chalupas não percebem é que as ondas de calor são cada vez mais frequentes, cada vez mais longas e com temperaturas cada vez mais altas. Os recordes estão a ser batidos em todo o lado e o impensável está cada vez mais perto de acontecer.

Há um ano, no Oeste americano, numa pequena cidade canadiana, o termómetro marcou 49,6, a tocar os 50 graus. E porque é que nos importa o que se passa a norte da Califórnia? Porque aquela região tem um clima mediterrâneo, como o que temos na Península Ibérica, e aqueles 50 graus acabarão por chegar cá um dia destes. Precisamos de mudar de vida, para evitar que as alterações climáticas tragam o inferno até à porta de nossas casas. Seremos capazes de perceber o que se passa ou vamos todos alinhar com os chalupas? Reconhecendo que estamos a matar o planeta, mas nada fazendo para alterar a situação.

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