Os pobrezinhos da Tia Laurinda

Daniel Oliveira dedica a crónica desta semana na TSF à polémica que envolve, uma vez mais, a vereadora para os Direitos Humanos e Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito do dia da erradicação da pobreza que se assinalou esta segunda-feira, dia 17 de outubro. Laurinda Alves "pediu às juntas de freguesia que arregimentassem pessoas sinalizadas e vulneráveis para que fossem todas para o parque Eduardo Sétimo".

"Sem risco de adições, porque o e-mail é explícito ao dizer que têm de ir acompanhados por alguém da junta, não se vão perder no caminho ou beberem ou fumarem o que não devem", ironiza o jornalista. Depois, continua Oliveira, "os pobrezinhos desceriam a Avenida da Liberdade".

O comentador assinala não saber bem qual o propósito desta "festa segregada para pobres", mas "não seria certamente para protestarem contra as suas carências porque isso não costuma ser convocado pelas autarquias".

A ideia, defende Daniel Oliveira, era organizar uma "atividade exclusiva para pobres que depois se exibiriam perante a cidade, não como sujeitos de direitos que os exigem na rua, mas como objetos de uma câmara que os usa como adereços".

Perante a indignação geral e a recusa de algumas juntas em participar "neste disparate", a autarquia lisboeta "cancelou a parte lúdica desta iniciativa, mas comparou o piquenique e atividades para pobres com uma conferência com especialistas sobre a pobreza".

Classificando as iniciativas como "atividades lúdicas e segregadas", o jornalista estabelece a diferença entre a solidariedade e a caridade. Esta diferença começa, desde logo, pelo objetivo.

"Uma pretende garantir a todos os instrumentos para a sua autodeterminação, a outra pretende perpetuar a sua gratidão; uma trata cada um como sujeito de direitos, que é credor perante sociedade; outra trata-o como instrumento de autossatisfação, sendo devedor da sociedade; uma trata cada cidadão como um indivíduo igual aos demais, não partindo de uma posição de desconfiança perante as suas escolhas, a outra como uma massa necessitada que tem de ser as todo o momento controlada."

Na opinião de Daniel Oliveira, que cita nesta crónica um poema irónico de Mendes de Carvalho - "um retrato sarcástico do olhar paternalista sobre a miséria" - e uma famosa crónica de António Lobo Antunes sobre os pobrezinhos das suas tias, "Laurinda Alves representa um tempo em que a compaixão cristã pela pobreza, que até podia ser genuína, não conseguia dar o salto para a solidariedade entre pares".

"Os pobres, como os demais, quando marcham é por direitos. Não são crianças para as quais se organizam atividades exclusivas tuteladas por outros, seguida de exibição pública para a comoção das almas caridosas que as instrumentalizam", remata.

A propósito desta polémica, Daniel Oliveira recorda o episódio em que, "em plena Assembleia Municipal de Lisboa, a vereadora Laurinda Alves explicou que a autarquia pensou em entregar bilhetes para o Rock in Rio a pessoas com dificuldades financeiras mas desistiu porque, havendo entre elas problemas de adição, a tentação seria grande".

"O argumento lembra, mais uma vez, a crónica de António Lobo Antunes, quando a tia Carlota disse ao seu pobrezinho para não gastar tudo em vinho. E ele, atrevidíssimo, respondeu que preferia comprar um Alfa Romeu", assinala.

Para o comentador, Laurinda Alves tem "as mesmas cautelas de Luís Montenegro", quando, em vez do apoio financeiro para lidar com a crise, o presidente do PSD "propôs vales alimentares". Não acredita, portanto, "na possibilidade de os mais pobres poderem fazer escolhas, certas ou erradas, como qualquer um de nós", porque "se as soubessem fazer, não eram pobres".

Texto redigido por Melissa Lopes

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