Os que esquecem a sua história estão condenados a repeti-la

Há formas muito diferentes de viajar e motivações muito diversas quanto ao que se procura. Pode ser descanso, diversão, cultura ou conhecimento. É fácil convergirmos em destinos exóticos, paisagens deslumbrantes ou cidades carregadas de história. Mas também acontece viajarmos ao encontro do que de mais negro a humanidade produziu, porque esse confronto com o passado é essencial para não nos esquecermos dos erros que somos capazes de cometer.

Auschwitz é um exemplo irrepetível disso mesmo. Percorremos blocos mantidos nas condições em que se tentou retirar a milhões de pessoas toda a sua dignidade, num processo de desumanização sem paralelo, e somos assombrados por dúvidas insistentes. Não se trata apenas dos porquês sobre como foi possível acontecer. É que a evolução do campo de concentração para campo de extermínio obedeceu ao progressivo aprofundamento de um programa ideológico e político. Não foi mera crueldade. Não foi um acaso.

Tendemos a considerar que hoje estamos imunes ao risco de idênticas construções tentarem desumanizar-nos e despojar-nos de valores que temos por adquiridos. Quando a invasão da Ucrânia nos mostrou, pelo contrário, que é sempre possível abalar pilares civilizacionais que consideramos consolidados. Tal como, de resto, noutros pontos do Mundo vão sendo questionados direitos humanos antes dados como fundamentais.

É neste contexto que vale a pena ler as mais recentes declarações do primeiro-ministro húngaro sem nos limitarmos a um encolher de ombros. É certo que o tom dos comentários em causa não é novo em Viktor Orbán, mas o contexto internacional é mais perigoso do que noutros momentos. E o contexto conta, claro. Disse Orbán que os húngaros não são nem querem ser "raças mistas" e que os países onde europeus e não europeus se misturam já não são nações, mas apenas "um conglomerado de povos".

As declarações provocaram uma onda de críticas de organizações internacionais, grupos religiosos e do próprio Governo romeno, já que Viktor Orbán se pronunciou durante um evento na Roménia. A filial do Comité Judaico Americano alertou que as palavras do primeiro-ministro húngaro lembram "ideologias perigosas da história". Já ontem, o porta-voz da Comissão Europeia, Eric Malmer, evitou polémicas: "Nunca comentamos o que os políticos europeus dizem", afirmou aos jornalistas. Ainda assim, acrescentou o que a circunstância impunha. Lembrou os valores que a União Europeia inscreve nos tratados fundadores, incluindo o direito a não ser discriminado com base na origem racial ou étnica.

Temos por vezes dificuldade em saber como lidar com extremismos, com populismos, com declarações intolerantes que acreditamos serem marginais. Confiamos nos valores democráticos e humanistas. Mas convém, sem dar protagonismo a quem não o merece, não minimizarmos riscos, sobretudo quando eles estão alicerçados no poder. Ideologias perigosas produzem o horror. Disso, nunca nos podemos esquecer.

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