Pobre Segurança Pública

Primeiro, e começando pelo fim.
Há polícias com ligações à extrema-direita, fascistas, nazis e racistas? Há. Há policias corruptos, incompetentes, desmazelados e que abusam da autoridade? Há. E estes, esses, sejam quantos forem, devem ser investigados, julgados e punidos. Ponto final. Os polícias e, já agora, todos os profissionais que estão ao serviço público e que também são fascistas, nazis, incompetentes, desmazelados e que abusam do poder que lhes foi delegado e da autoridade que lhes foi confiada. (Assim de repente, lembro-me de vários outros servidores públicos, só que estoutros com a diferença de se apresentarem com um Dr. ou Doutor antes do nome próprio).

Depois.
A larguíssima maioria dos agentes da polícia são gente decente, escrupulosos cumpridores da função que lhes foi confiada, mulheres e homens que zelam pela ordem pública, pelo bem comum, pela segurança coletiva. E que cumprem as normas, as regras e as leis.
Há dias, um polícia, ao ser homenageado publicamente por um ato de coragem - entrou numa casa em chamas para retirar um cidadão que, adormecido por drogas, iria ser consumido pelo fogo - gracejou com a plateia. Disse, basicamente, ter noção de quem nem todos os que o aplaudiam naquele momento, naquela sala, gostavam de polícias. Mas, sublinhou, também, na grande maioria, não era por serem «criminosos», mas apenas por serem «infratores». Temos sempre este dilema com os polícias. Gostamos deles quando precisamos de um, detestámo-los quando nos apanham em excesso de velocidade, a conduzir embriagados, sem documentos ou sem seguro, quando estacionamos mal ou quando fazemos uma manobra considerada perigosa.

Nesta relação de amor/ódio com os polícias tendemos, na maior parte dos casos, a valorizar mais a parte do «ódio» do que a parte do «amor». «Quando precisamos de um polícia, nunca aparece nenhum. Mas se fosse para multar, já cá estavam». É mais ou menos isto que diz o senso comum. Por isso, como eles «só aparecem» nos momentos em que não os queremos ver, a tendência é para só nos lembrarmos do «polícia mau».

A vida destes homens e mulheres é tremenda.
Ganham mal, muito mal, tendo em conta o poder e a responsabilidade que lhes delegamos. Trabalham em condições miseráveis. As frotas são risíveis, o papel higiénico - e por vezes, o da impressora também - vem de casa. Há esquadras que são apenas lugares podres, bolorentos, húmidos, com infiltrações no inverno e um calor insuportável no verão. Muitas, vistas de fora, são apenas casebres em ruínas, mas onde o estado delegou a autoridade da segurança e bem-estar de todos nós. Os polícias fazem turnos a mais, horas extra sem fim, são escalados para os chamados «gratificados», que são reforços de policiamento pedidos por particulares e pagos à parte, vão a jogos de futebol, acompanham claques, vigiam o trânsito, atendem a casos de violência doméstica, além dos roubos, dos furtos, das injurias, desavenças entre vizinhos, discussões entre amigos que acabam mal por causa da bola e um sem número de outras «ocorrências» que lhes consomem tempo, energia, os escassos meios e, sobretudo, a paciência. Este lado de polícia «bom», o que chamamos quando é preciso, acaba por ser um saco de pancada da sociedade em geral. E, sim, os polícias não são psicólogos, psiquiatras e, muito menos, legisladores ou juízes.

A semana passada, o Ministro da Administração Interna encomendou aos autarcas - a quem mais haveria de ser ? - que tentassem arranjar comida de graça e alojamento a bom preço para os agentes que estão deslocados de casa. Trata-se de fazer caridade, de remendar situações que não foram nunca resolvidas de forma estrutural, apesar do desfile sucessivo de ministros e diretores nacionais nas últimas décadas. Uma esmola.

Uma vez, entrei num dos alojamentos fornecidos pela instituição, para policias deslocados. No início pensei que estavam a brincar comigo e que estava, afinal, a visitar uma casa abandonada, onde viviam sem abrigo. A pouca mobília era velha, desconjuntada e parecia ter vindo do lixo. O soalho tinha buracos, estava podre e húmido. Os colchões espalhados pelo chão, tinham de estar desencostados das paredes, por causa da água da chuva que escorria sem parar. A «limpeza», só uma vez por semana. A cozinha era um inferno, com uma ligação de gás pirata e precária, pronta a explodir a qualquer momento. O espaço estava superlotado, não só com os homens que tinham, muitas vezes, de utilizar o sistema de cama quente, como nos submarinos, mas também pelos ratos que, animados por tamanha miséria, faziam companhia aos efetivos que descansavam(?) apenas umas horas e, pouco depois, fardados com brio e aprumo, estavam de volta ao fim da cadeia, a suportar as fragilidades da sociedade.

Não tenho qualquer respeito por polícias corruptos, racistas, incompetentes ou que abusam da autoridade e do poder.
Aos outros, à grande maioria dos que nos servem mesmo sem darmos por isso, o meu respeito, admiração e a devida vénia. São gente de coragem, de sofrimento e de resiliência. E mal pagos. E em risco. Não é, por isso, de estranhar, que pela primeira vez em muitas décadas, as vagas para novos policias não tenham sido preenchidas. Só por esse facto, «a tutela» já deveria estar preocupada. Esquadras com rodas que avariam no primeiro dia; esmolas nas cantinas municipais; subsídios ah-hoc; anúncio do reforço de meios e outras manobras administrativas e de propagada não resolverão, nunca, a questão estrutural. E já nem falo apenas de salários, meios, condições de trabalho e operacionalidade. Falo, também, de dignidade.

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