Quem fala em nome de Deus não pode ser cúmplice pelo silêncio

É muito difícil entender o silêncio de dois cardeais patriarcas perante um caso de abuso sexual de menores. Não me importa o que a lei dizia e o que diz agora, as regras que a Igreja não tinha e que impõe agora. Quem se arroga no direito de falar em nome de Deus, de conduzir multidões segundo a sua palavra, tem a obrigação de nunca calar tamanha imoralidade.

Não colhe o argumento de que a vítima não queria a divulgação do seu caso, tanto mais que ele é um dos que consta da longa lista das mais de 300 queixas que chegaram à Comissão Independente que investiga abusos sexuais por elementos do clero em Portugal. E os que podiam ter sido salvos e não são cada vez que os homens de Deus se calam?

Se aquele silêncio diminui a esperança de ver a igreja portuguesa seguir o conjunto de normas que o Papa Francisco impôs aos seus bispos, depois de os ter reunido a todos em Roma, em Fevereiro de 2019, o que devemos pensar de um patriarcado que acha normal ter um suspeito de pedofilia a trabalhar numa associação privada que organiza actividades com crianças e jovens? A igreja portuguesa decidiu nada fazer, bem sabendo que os especialistas dizem que, nada se fazendo, "há um alto risco de prossecução do mesmo crime porque os abusadores, uma vez abusando, têm grande probabilidade de o continuar a fazer".

Não há filósofo, nem teólogo, que não estabeleça uma relação íntima entre a religião e a moral. E, no entanto, o que vemos neste caso parece um total desapego a qualquer moralidade. Séculos atrás de séculos e a igreja continua a ser gerida tendo como prioridade a defesa dos homens que a habitam, dando razão aos ateus que a atacam por desconfiarem que Deus é tão só uma invenção desses mesmos homens para garantirem privilégios.

Quando se comportam sem um pingo de decência, vivendo em pecado e sendo criminosos, os religiosos pedófilos fazem mais para matar Deus que os ateus. Que as mais altas figuras da Igreja Católica não percebam isto e se remetam ao silêncio perante o que lhes é denunciado faz deles cúmplices. Senão dos crimes praticados, até porque podem ter prescrito, pelo menos desta ideia de que a Igreja anda há séculos a lavar as mãos como Pilatos, que condenou Cristo a morrer na cruz, recusando tomar parte no julgamento. Uma igreja que cala é uma igreja que deixa Cristo novamente sem defesa.

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