Quem não quer um novo modelo de acesso ao ensino superior?

Dado a conhecer esta semana, o relatório Empregabilidade dos Ciclos de Estudos do Ensino Superior, da autoria do Tribunal de Contas, é um documento de importância fulcral e deverá merecer uma leitura cuidada e criteriosa.

O destaque que a imprensa lhe atribuiu incidiu principalmente nos cursos eleitos pelos alunos e a respetiva empregabilidade, um processo manifestamente a carecer de mais informação sobre as perspetivas de oportunidade de emprego efetivo.

Assim sendo, importa continuar a aumentar o número de vagas para cursos na área da informática e do digital, igualmente em áreas onde há uma maior taxa de emprego, nomeadamente medicina, que deve, por questões óbvias, aparecer na linha da frente.

As escolas efetuam um trabalho extraordinário, muito bem desempenhado pelos Serviços de Psicologia e Orientação Vocacional, dando nota dos potenciais e interesses dos alunos na construção do seu projeto profissional futuro, apresentando, sempre que possível, informação viável e detalhada sobre as perspetivas de emprego, sem que isso coarte os sonhos legítimos e as motivações pessoais.

Contudo, julgo de primordial relevância a apresentação de medidas que mitiguem as desigualdades no acesso ao ensino superior (também para estudantes com incapacidade) e, aí chegados, o reforço e a individualização de medidas de suporte aos alunos com menos recursos económicos (bolsas de estudo que contemplem apoios no âmbito da ação social escolar, auxílios para o arrendamento, entre outros) e, não menos importante, o acompanhamento psicológico, tão útil para tantos que passam por questões emocionais flagrantes.

É fundamental que não se protele ad aeternum o escamotear do debate no que respeita ao modelo de acesso ao ensino superior, antes o devemos promover com todos os atores implicados, dado a heterogeneidade de opiniões apresentar-se como promotora de alternativas e mudanças de uma matriz que já atingiu a maioridade.

Para início de discussão, pontuo como prioridades:

1. A redução do número das provas de acesso (já aplicada) peca por ser uma medida reativa, uma vez ter sido implementada devido ao circunstancialismo dos constrangimentos trazidos pela COVID-19; escreveu-se direito por linha tortas, esperando-se a manutenção desta deliberação;

2. A implicação dos responsáveis do ensino superior no recrutamento e seleção dos seus futuros alunos deverá ser a realidade, em substituição do comportamento letárgico com que agem, limitando-se a recebê-los nas suas instituições; é uma atitude pobre, infelizmente consentânea com a generalidade das ações de um "ensino" (o superior) que olha para o seu antecessor como subalterno;

3. O recurso a critérios meramente quantitativos é redutor e injusto, excluindo, por décima(s), alunos do curso para o qual estão motivados e têm capacidades, por vezes em detrimento de colegas que são admitidos sem a vocação ou o entusiasmo que são benéficos.

Estas ideias devem servir como um início da conversa que se pretende participada, para a qual alguns responsáveis do ensino superior se têm furtado. Afinal, são só estes que não querem um novo modelo de acesso ao ensino superior?

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