Todos a bordo e siga a marinha

Não há duas sem três. E, na semana passada, o Governo levou à letra a sabedoria popular que, às vezes acerta, às vezes não. Costa mandou chamar os ministros para conselho, não uma, não duas, mas três vezes em apenas oito dias. Primeiro, terça-feira, um conselho extraordinário para fazer aprovar - e anunciar - novas medidas mesmo antes do debate do estado da nação. A 24 horas do combate que fecha o ano parlamentar, os ministros foram intimados a comparecer para acertar detalhes antes do "grande" confronto com a(s) oposição(ões).

E nem o confronto foi grande, digamos assim, nem o debate justificaria tamanha preparação. Um dos males das maiorias absolutas é, precisamente, a tendência para as confundir com arrogância absoluta. Quando Costa juntou 17 perguntas e intervenções dos deputados da oposição e, por grosso, demorou minuto e meio a dar resposta, está claro que fez ouvidos moucos às interpelações e debitou apenas um conjunto de palavras que fazem tábua rasa das regras da democracia, do parlamentarismo e, no limite, da obrigação dos deputados de serem o fiscalizador do governo. Costa ignorou quase metade do hemiciclo, mas sem nenhum pudor nisso. E pode fazê-lo, já que a outra mais de metade dos deputados lhe pertencem. Não é, no entanto, novidade esta atitude de a nada responder, de usar o tempo regimental como arma de arremesso e não como forma de esclarecimento. Trata-se de um truque retórico e de comunicação que ignora a pergunta direta, desvia o assunto e parte para o ataque. Muitos antes dele o fizeram e outros o farão, no futuro. O que não quer dizer que esteja certo. No jornalismo, dizemos sempre que somos livres de fazermos as perguntas que entendemos, e os entrevistados têm o direito de não responder. Uma não resposta também é uma resposta, para quem estiver atento e souber interpretar. Mas, o parlamento não é um estúdio, os deputados não são jornalistas e o primeiro-ministro não é um entrevistado. Um órgão de soberania tem obrigação de responder a um outro, que o fiscaliza. É por isso que chamamos a isto democracia, equilíbrio e separação de poderes, estado de direito. Ignorar deputados é ignorar quem os elegeu, é desprezar quem não votou na maioria, é fugir de dar as devidas explicações no lugar certo aos eleitores.

Quinta-feira, no dia de depois do debate, o Conselho de Ministros voltou a reunir-se. Uma reunião ordinária, a das quintas-feiras. Mais medidas e mais anúncios, nada de novo para uma quinta-feira, seja ou não semana do "debate" do estado da Nação.

Sábado, outra vez, outro conselho, mande-se chamar os ministros, sem gravata, que é informal - o traje e o conselho. António Ferro não teria pensado melhor: ministras e ministros descontraídos, dia de sol radioso, nada como um passeio de barco, pela manhã, a Marinha fica assim ao serviço de suas Excelências, "dará boas imagens", afinal o país está para ir de férias, nada de fatos escuros e roupa apertada. Costa sabe bem disso, fica na popa, a proa está ocupada, calças claras, camisa escura, óculos de sol, dali, da popa, as câmaras conseguem apanhá-lo, ao homem providencial. Na fila para entrar no barquinho, há quem fique deliberadamente para trás, talvez por não querer partilhar a viagem com o primeiro. Um telefonema providencial ou um telefonema imaginário deixam o ministro Egas Moniz para a segunda vaga. Siga, portanto, a marinha, para novo conselho do qual nada se soube, a não ser que tinha sido "muito produtivo". Mesmo que não fosse, o que diria o primeiro-ministro, no regresso a terra firme? Não poderia dizer coisa diferente, afinal o conselho é dele, os ministros também, foi ele que os escolheu, é ele que os mantém.

Uma semana, três reuniões, duas delas extraordinárias, logo os comentadores se apressaram a dizer que o "governo" começou mal, mas que está a mudar. Pelo menos, está a mudar a imagem. Antes um conselho do qual nada se sabe, a não ser que correu bem, do que um debate onde muito se diz e a nada se responde. Se, para o governo "mudar", eram precisas três reuniões numa semana e uma encenação de ministros on board, o novo propagandista do conselho já começa a merecer o salário que recebe. A ele não lhe compete governar. Só dar a ideia que sim.

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