Tunísia em dia de referendo e Mali em madrugada de quase terror

A Tunísia vai hoje a votos, para aprovar uma nova Constituição. De forma mais ou menos telegráfica, o Presidente (PR) Kais Saied, no Poder desde Outubro de 2019, fartou-se do "Parlamento espectáculo" que a "geringonça islamista" fez da Assembleia dos Representes do Povo, num governo de coligação onde os coligados em vez de governarem se agrediam diariamente. Há precisamente um ano, a 25 de Julho de 2021, Saied suspende o Parlamento, demite o Primeiro-Ministro Hichem Mechichi e inicia um novo processo, às escuras, no qual a população na altura pouco percebeu que destinos teria, adensando as suspeitas e os medos de que a "pequena República dos Professores", conforme ficou conhecida a recém independente Tunísia do primeiro PR Habib Bourguiba (1957-1987), voltasse de novos a ficar nas mãos de um déspota que se vê iluminado ao espelho. Com o Executivo e o Legislativo concentrado em si, desde Julho de 2021, o PR juntou-lhe o Judiciário a partir de Fevereiro último, farto também de ver a corrupção e as influências inquinarem os processos dos assassinatos políticos decorrentes do período de transição pós-Primavera Árabe. Esta justiça tinha de ser feita enquanto símbolo da passagem da barreira psicológica entre o antes e o depois.

Estas são as duas razões principais para a tomada de decisão presidencial: ingovernabilidade de um Governo de coligação que não esteve à altura da ética de Estado e a corrupção endémica que conseguiu acompanhar a revolução de 2011 e se manteve instalada desde 2012.

Quanto à nova Constituição, a votos desde as 06h até às 22h locais de hoje, trás sobretudo um reforço dos poderes presidenciais, para evitar o cenário de conflito que foi evoluindo desde 2019. Kais Saied quer assumir-se como um "Presidente Pastor", que guia o rebanho e reforça mecanismos de "abate correctivo" às ovelhas que se forem tresmalhando!

Fugindo um pouco à análise, não posso deixar de vincar esta nota pessoal, já que a dúvida se adensa relativamente a quem afirma e bem "pois, mas estas são precisamente as justificações dos ditadores antes de o serem efectivamente"! Correcto. No entanto e relativamente ao PR Kais Saied, dou-lhe o benefício da dúvida. Porquê? Porque o actual PR certamente não se vê continuamente no cargo nos próximos 10 ou 20 anos, estando certamente mais preocupado com o legado que deixará, no decorrer de uma ruptura histórica regional que teve início precisamente na Tunísia. O "Presidente Pastor" que hoje será consagrado em "referendo plebiscitário", estará muito mais interessado em ficar na História enquanto aquele que teve a coragem e a capacidade de arrumar a casa e deixar o trabalho mais difícil feito para aquele que vier a seguir. O nosso erro, é olharmos para a Tunísia com os nossos olhos, com as nossas referências e não perceber que as idiossincrasias tunisinas, magrebinas e islâmicas também podem contribuir para novos modelos de Democracia, adaptados às diferentes realidades locais. A Democracia não tem de ser um monólito, poderá antes ser um mutante, que servirá os interesses das populações, consoante as populações!

Mali: Um inédito ataque a Kati

Inédito porque Kati, a 15 km da capital Bamako, é actualmente o centro do Poder no país. Foi da Academia Militar de Kati que em Agosto de 2020 o Coronel Assimi Goita e seus colegas de turma/curso, rumaram à capital para depor o então Presidente Ibrahim Bubakar Keita. É em Kati que a Junta Militar que conquistou o Poder nesse Verão está actualmente instalada.

Na madrugada da passada sexta-feira 22, pelas 05h, um grupo terrorista, ainda não totalmente identificado, tentou um ataque terrorista à Academia Militar, com dois veículos repletos de explosivos. Após os tiros iniciais, este ataque conseguiu ser evitado, num binómio militares/população, que muito contribuíram para a captura de oito criminosos.

Não sendo ainda exactamente clara a autoria/mandante desta provocação, as suspeitas recaem sobretudo na Katiba Macina, afiliada à Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), pois no dia anterior, quinta-feira 21, verificaram-se seis ataques simultâneos a outras bases militares no centro do país. O AQMI parece ter realinhado os seus alvos, das populações para os quarteis, demonstrando a audácia de atacar o centro do Poder no Mali que, fruto de se tratar de zona fortemente militarizada, não lhes correu bem. Regista-se esta audácia, precedida da inocência em atacar outras bases militares na véspera, o que certamente reforçou a segurança ao alvo principal!

A Acontecer / A Acompanhar

Decorrerá até 29 de Julho a Primeira Edição do Cinalfama Lisbon International Film Festival.

Raúl M. Braga Pires é autor do site Maghreb-Machrek, é Politólogo/Arabista e escreve de acordo com a antiga ortografia

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de