Vacinas: mais uma crise, mais um fracasso europeu

Daniel Oliveira salienta, no seu espaço habitual de Opinião na TSF, que Israel já tem mais de metade da população imunizada e que um terço dos britânicos já recebeu uma vacina. Também "10% dos norte-americanos já estão imunizados e 20% foram vacinados", face aos "apenas 8% da população portuguesa" que já recebeu pelo menos uma dose da vacina e 3,2% estão vacinados.

"Mas o problema não é português", argumenta o cronista. "No conjunto, nem estamos mal. A União Europeia está abaixo disto. Itália, Alemanha, França, Áustria, Suécia ou Holanda estão abaixo de Marrocos, da Sérvia ou da Turquia, apesar de terem mais recursos económicos institucionais e humanos."

O jornalista acrescenta que, a somar ao atraso, surge agora a "sucessão de suspensões da vacina AstraZeneca".

"Imagine-se que se suspendiam todos os medicamentos em que se detetassem 30 casos de uma reação adversa em cinco milhões de pessoas que o usassem, e o número desses episódios em cinco milhões de pessoas não parecesse ser mais elevado do que no resto da população." Daniel Oliveira convoca os ouvintes neste exercício e remata: "Só mesmo a falta de vacinas permite este folclore absurdo."

O jornalista considera "um desastre" o processo de vacinação na Europa. "Já não há mais testes para a União Europeia: sempre que vem uma crise, falha." Daniel Oliveira enumera: falhou "clamorosamente" durante a crise financeira de 2009, voltou a fracassar na crise dos refugiados, "e falha agora na urgência de vacinação, para regressarmos à normalidade".

"Veremos se não volta a falhar na recuperação económica depois da pandemia", comenta. "Ou se, como no passado, apenas acerta para os do costume", atira o jornalista. Daniel Oliveira acredita que o caso da vacinação se prende com mais do que incompetência. "É fruto dos dois principais problemas da União que, na realidade, se resumem a um: a União Europeia é uma estrutura pouco ou nada democrática. Quem manda não depende de eleições. Ursula von der Leyen não tem medo de que os seus eleitores se revoltem contra ela. Porque não tem eleitores, porque não existe cidadania europeia para liderar uma revolta, porque nenhuma forma de escrutínio democrático funciona na União Europeia com a intensidade com que funciona nos Estados."

Daniel Oliveira tece estes comentários com a certeza de que "a esmagadora maioria dos europeus nem sabe as pessoas que mandam", pelo que "ou responsabiliza uma entidade abstrata - a Europa - ou os eleitos que conhece - os políticos nacionais".

"Até os ditadores têm mais medo do seu povo do que os eurocratas", finaliza. O jornalista considera que é uma ausência de democracia que torna os poderes políticos europeus "ainda mais vulneráveis aos poderes económicos do que o que já acontece nos Estados".

A dimensão e força do bloco europeu, ao que se acresce a abrangência do mercado na Europa, deveriam, de acordo com o cronista, ter o efeito contrário. É a "distância do povo em relação aos eleitos" que coloca o poder nas mãos dos lobbies económicos, alerta.

Daniel Oliveira também aponta a incongruência de grande parte das vacinas ser produzida em espaço europeu e a União Europeia ser "incapaz de se impor às farmacêuticas".

"Apesar dos acordos internacionais de comércio permitirem levantar as patentes quando esteja em causa a saúde pública, a União come e cala. Para alguns, a solução seria pagar ainda mais às farmacêuticas, entrando num leilão mundial." O cronista assinala, no entanto, que grande parte da investigação para a produção destes fármacos avançou "com dinheiros, encomendas e garantias públicas, que livraram estas multinacionais de qualquer risco". Por isso, acredita que, "se as farmacêuticas não têm capacidade de produzir ao ritmo contratado, há, em todo o mundo e na Europa, quem o possa fazer".

O jornalista critica a União Europeia por ter pagado e depois se ter entregado "à vontade de quem ficou com a patente".

"Grande parte da capacidade de produção de vacinas está por usar, e, mesmo assim, a União Europeia e os Estados Unidos bloqueiam o pedido da Índia - segundo maior produtor de vacinas do mundo - para que suspendam os direitos de propriedade industrial. Não produzimos, nem deixamos produzir, em nome dos que chegaram à vacina, com dinheiro dos contribuintes."

Daniel Oliveira cita o antigo bastonário da Ordem dos Farmacêuticos e ex-administrador da Agência Europeia do Medicamento José Aranda da Silva: "Há uma capacidade excedentária de produção de vacinas por usar, a nível europeu e mundial, enquanto morre gente por falta de vacinas."

"Não está em causa nenhuma questão ideológica; nenhum liberal pode defender que a economia global fique paralisada e a liberdade de movimentos limitada para não beliscar os interesses de meia dúzia de empresas, e não é preciso ser socialista para não permitir que poucas multinacionais tenham o futuro do mundo e da Europa nas suas mãos." O que é preciso, defende Daniel Oliveira, é "um mínimo de coragem política, sobretudo quando se pagou".

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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