Vergonha para o Brasil, até em funeral

A forma como Jair Bolsonaro aproveitou o funeral da rainha Isabel II, em Londres, para fazer campanha interna é o tema analisado por Daniel Oliveira na crónica da TSF desta semana. Para o jornalista, "há limites" para a maneira como o Presidente do Brasil transforma a representação de "um país extraordinário" numa "vergonha alheia global".

Assinalando que a comunicação social deu uma "dimensão desproporcionada" ao funeral da monarca, e que isso levou a que muitos políticos se colassem, Daniel Oliveira constata que o momento histórico se transformou também num palco onde se fez "política global ao mais alto nível". Disso foi exemplo o encontro da primeira-ministra do Reino Unido com o seu homólogo irlandês.

Mas houve outros momentos, protagonizados por aqueles que o cronista apelida de "bimbos". O Presidente francês, por exemplo, "viu uma multidão e achou que devia testar a sua popularidade fora de portas, indo cumprimentar o povo." Marcelo, acrescenta, "ficou invejoso, mas a sua educação mais apertada impediu-o de fazer figuras tristes".

Neste 'filme', Bolsonaro é "aquele membro de todas as famílias que ninguém convida para os jantares a não ser no Natal porque tem de ser". "Como está em campanha, Bolsonaro achou que aquela era uma ótima oportunidade de fotografia. Não foi o único, mas para estas coisas é preciso alguma diplomacia", diz Oliveira, afirmando que o " homem que já desmarcou um almoço com o Presidente português e que depois o enfiou num comício à boleia do bicentenário da independência, não faz ideia do que isso seja".

Criticando a falta de educação e decoro do Presidente brasileiro, Daniel Oliveira observa que Bolsonaro se passeou em Londres "com um ar de quem acabou de se saber herdeiro de uma tia rica". "Não se tem de fingir que se está triste quando nem se conhece a defunta mas é possível manter a compostura".

Na capital britânica, naquela que era visita de Estado ao Reino Unido, Bolsonaro "gravou vídeos de propaganda em bombas de gasolina inglesas" e a primeira-dama "fez-se fotografar com o seu modelito de funeral", ao lado de um maquilhador e influencer".

Mas o momento "mais absoluto", diz Oliveira, foi quando, em plena visita de Estado, e da janela da residência oficial do embaixador do Brasil, Bolsonaro" decidiu fazer um comício para 200 apoiantes convocados para a ocasião", um grupo que "na rua obrigou a polícia a proteger os ambientalistas ingleses que protestavam contra a destruição da Amazónia".

"Os bolsonaristas insultaram e fizeram gestos grosseiros contra quem os filmava" e Bolsonaro "disse que as sondagens estavam erradas e, como Trump, voltou a lançar suspeitas sobre o sistema de votação. Numa cidade em estado de segurança máxima, os apoiantes de Bolsonaro gritaram que Lula era ladrão e que o seu lugar era na prisão", assinala com lamento.

O jornalista diz que o Presidente brasileiro se prepara para "repetir a graça na assembleia-geral da ONU", mas "os diplomatas já mostraram diplomática preocupação". "Mas, pelo menos em Nova Iorque não vai atravessar o velório de uma senhora idosa", comenta.

Para Daniel Oliveira, "os brasileiros terão muitas razões para se aliviarem com o fim do mandato deste absoluto Presidente" que acumula várias 'medalhas' - "da trágica gestão da pandemia, ao aumento da fome, do insuportável ambiente tóxico à total impreparação".

O Brasil - centro cultural da língua portuguesa e potência económica e política - "não se pode passear como se fosse uma pequena e patética república das bananas" e "não merece passar por mais vergonhas".

"Merece que o seu presidente seja recebido como eram os antecessores de Bolsonaro, com respeito por tudo o que representa", defende, acrescentando que, depois das eleições de outubro, "os brasileiros têm que reconquistar muita coisa" a nível interno: "a normalidade democrática, a sanidade no debate política, o mínimo de competência e preocupação com a vida do povo, o respeito pela liberdade de criação, expressão e imprensa", mas também a reconquista do respeito do mundo.

*Texto redigido por Melissa Lopes

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