Voar sobre a indecisão

Todos percebemos que o ministro Pedro Nuno Santos quis ser o socialista da ação, e assumiu-o, quando aprovou o decreto sobre a localização do novo aeroporto, investimento que havia andado pendurado pela indecisão da liderança política quase uma década, fora os anos que estão para trás.

Todos percebemos o entendimento político de António Costa sobre o decreto do seu próprio ministro. O rápido e sonoro puxão público de orelhas a Pedro Nuno Santos procurou deixar claro onde estavam as rédeas do comando executivo do Governo. E o ministro das Infraestruturas percebeu, tratando de pedir desculpas públicas numa conferência de imprensa em que assumiu o lapso de comunicação decisório.

A consequência do episódio teve, no entanto, um produto político claro: António Costa ficou obrigado a agir.

Acontece que, para além dos exercícios de gestão política, o país precisa decisivamente de um novo aeroporto com capacidade para dar resposta a um dos setores mais determinantes da nossa economia: o turismo. O país deve também ficar a perceber que papel cumprirá a restante capacidade instalada: Portela, Sá Carneiro ou Beja.

Mas precisa sobretudo de perceber se as opções em aberto, como por exemplo Santarém, vão ser alvo de estudo efetivo, no que poderia configurar uma alternativa eficaz à costumeira centralização, ou se servem apenas para ajudar o tempo a passar.

Adiar é o que não se deveria esperar de António Costa, que, em contraste com o seu ministro, o da ação, procurou agir como um diplomata senatorial, envolvendo Belém e procurando alargar a base de apoio relativa à decisão que terá de tomar, trazendo para o diálogo o maior partido da oposição.

A justificação também se conhece: um investimento como um novo aeroporto perdurará para além do ciclo de um partido no Governo, dada a sua importância estratégica de desenvolvimento.

Sucede que o mesmo poderia ser dito sobre um novo hospital central, uma nova autoestrada Norte-Sul, ou mesmo uma ponte para o TGV. As grandes obras públicas, ao contrário dos acordos sobre, por exemplo, questões fiscais, duram sempre para além das respetivas lideranças partidárias.

Espera-se é que a tentativa de alargar a base de apoio de uma decisão que é urgente, necessária e estrutural não venha a servir de desculpa para não se decidir. Não vá o ministro socialista da ação demonstrar que, afinal, tinha razão.

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