O dia em que Saramago vestiu os calções de Caetano Veloso: uma viagem à Bahia em fotos inéditas

São nove fotos exclusivas tiradas pelo fotojornalista Xando Pereira, e que a partir de hoje vão ficar expostas na casa de Jorge Amado, em S. Salvador da Bahia.

A exposição "Amado Saramago - Uma visita à Bahia" até podia ter como título "O dia em que Saramago visitou S. Salvador da Bahia e vestiu uns calções e uma t-shirt de Caetano Veloso". Retrata a visita do Nobel da Literatura ao seu amigo Jorge Amado e a visita que realizou ao mercado Modelo, o mercado de artesanato nesta cidade brasileira.

Cada fotografia tem uma história por trás. Xando Pereira, fotojornalista brasileiro, lembra-se bem dos dias 2 e 3 de fevereiro de 1996. Conheceu o escritor português na casa do cantor Caetano Veloso, numa festa de celebração à Deusa do Mar, Iemanjá." Caetano Veloso tinha convidado Jorge Amado para ir para a casa dele, que fica junto ao mar e assistir à festa. Há uma procissão dos barcos, as pessoas levam oferendas para o mar...", lembra o fotógrafo. "E aí Jorge Amado falou: " Caetano, eu vou mas tenho um convidado" e Caetano disse "pode trazer", conta. Foi assim que, nesse dia, Saramago e Pilar del Rio se juntaram à festa na casa do cantor baiano, e o fotógrafo conseguiu imortalizar esse momento para a revista Caras do Brasil.

No entanto, o exclusivo só o conseguiu no dia seguinte. Através de um camarada de trabalho soube que José Saramago era madrugador e, ainda mal o sol tinha raiado, colocou-se junto à porta do hotel onde estava o autor. Quando o editor de Saramago chegou, reconheceu-o e deixou escapar que o escritor gostaria de visitar o Mercado Modelo, um mercado de artesanato em S. Salvador. "Eu posso levar", prontificou-se o fotojornalista. Assim, seguido pelo carro onde estava Saramago e a mulher, Xando Pereira levou-os até ao local. "Eu fui o cicerone de José Saramago em S. Salvador", lembra a rir

O escritor, que ainda não tinha sido galardoado o prémio Nobel, andou incógnito pelo mercado e Xando Pereira, que à época trabalhava como freelancer para vários jornais e revistas, conseguiu fotos inéditas. " Esta visita só eu fotografei", garante. Na altura não havia telemóveis e o fotojornalista tem retratos de Saramago e Pilar del Rio junto ao povo baiano, a ver artesanato, Pilar a experimentar uma sandálias de couro.

Atualmente editor de fotografia do jornal A Tarde, lembra um homem sério, de poucas falas e que não ia em conversas de jogadores de capoeira. "Um jogador de capoeira pediu-lhe 10 reais e ele disse que era muito, deu-lhe só cinco", recorda. "Ele ficou calado o tempo inteiro, observando muito, com um semblante sério, mas comprou muito artesanato, umas figuras de artesanato do nordeste", puxa pela memória.

A visita durou cerca de uma hora e Xando, que se tornou um cicerone improvável, teve que ser sóbrio no seu trabalho. "Eu fotografei, mas bem discreto, fiquei bem distante e ele no final disse "basta de fotografias", relata.

Na sua memória, o fotojornalista reteve também a imagem de um homem pouco habituado à descontração brasileira, embora muito conversador com o seu amigo Jorge Amado na festa realizada na casa de Caetano Veloso. "Eles conversaram muito", afirma. "Aqui em fevereiro faz muito calor e mais tarde soube que Caetano Veloso emprestou um short e uma camiseta branca" para Saramago. "Ele estava de calça preta e camisa de manga comprida", lembra. "Tinha que se ventilar um pouco", afirma a rir.

Na altura, o jornalista bem tentou vender as fotografias, mas nenhum jornal ou revista se interessou por comprar. Agora, para assinalar o centenário do nascimento do autor, os trabalhos vão estar expostos ao público pela primeira vez na casa do Rio Vermelho, a antiga casa de Jorge Amado, transformada em museu.

São nove fotografias. Memórias e imagens inéditas que ficaram retidas numa câmara e que hoje ficam patentes a todos os olhares. Delas, Xando Pereira destaca duas, tiradas no dia da festa na casa de Caetano. Uma é a de Saramago com as flores nas mão, junto ao mar. Na altura eu disse-lhe se ele não ia homenagear Iemanjá e ele respondeu-me que era ateu e riu", lembra. "No entanto, mais tarde , apareceu com as flores para jogar ao mar", adianta. " A outra foto é a abertura da exposição é é uma fotografia de Jorge Amado, a sua mulher Zélia Gatai, e José Saramago", explica.

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