Porto Post Doc: Conta-me histórias no Porto com Rei...ninho

A mente de Rui Reininho e a América pelo olhar de Mário Cruz e Pedro Sousa Pereira no fim de um festival de cinema documental com neurodiversidade e muita música.

Dario Oliveira, o fundador e director do festival de cinema documental do Porto não tem dúvidas: "Foi uma semana muito intensa. A cidade acolheu muito bem os nossos convidados internacionais. Temos aqui três centenas de profissionais. Pela primeira vez fizemos três dias dedicados à indústria e, como é natural, a cidade engoliu os nossos convidados. Houve atividades e houve uma receção enorme. Foi muito bom ter acontecido. O público duplicou relativamente ao ano passado, o que seria de esperar, porque ano passado as pessoas tinham muitos receios de sair e de estar num sítio público".

O que não quer dizer recuperar o hábito de ir ao cinema que havia até março de 2020: "Não, seria falacioso usar esse argumento de que voltámos à normalidade. Isso não existe. Aquilo que agora vivemos é uma nova realidade. E essa nova realidade é que as pessoas se habituaram a ver, ainda mais, filmes em casa". Novos hábitos mas a mesma urgência: contar histórias. "O espaço que nós damos ao entretenimento já é aquilo que os ingleses dizem numa única palavra o storytelling. Nós precisamos de ouvir histórias, de ver histórias, de nos lembrarmos das histórias e de as contar também. E o cinema faz parte da vida de todos. A nossa grande dificuldade nesta floresta de informação é conseguirmos chegar a toda a gente. Portanto, a nova realidade é que o Festival de Cinema do Porto Post Doc "tem menos espectadores do que tinha em 2019, mas tem estado a correr muito bem neste espaço incrível cheio de memórias de cinema", afirma Dario Oliveira à TSF, sentado à porta dos cinemas Trindade, no centro do Porto.

O festival ocupou as duas salas do cinema Trindade e do Passos Manuel (ao lado do Coliseu que recebeu a sessão de abertura) mas também a Casa Comum na Reitoria e o Planetário, que "tem tido sessões esgotadas".

Ainda este sábado à tarde, uma sessão infantil na Casa Comum na Reitoria, às 16 horas: "temos um atelier a que chamamos Microcosmos, a partir do filme com o mesmo nome, mas é um atelier imersivo, onde as crianças podem e vão brincar e fazer uma experiência sensorial à volta do mundo, à escala dos insetos, mas numa escala completamente transformada. Portanto, é uma coisa que lhes vai ficar na memória, como todas aquelas atividades que propomos para crianças, que são as melhores memórias que nós temos do cinema. Nós queremos que sejam uma memória impactante; que dentro de alguns anos os miúdos se lembrem que estiveram no Porto Post Doc a fazer um atelier e viram e descreveram o filme".

"Contar as histórias", alerta Dario Oliveira, "é a grande dificuldade das crianças em idade escolar. Sabem muitos números, sabem muitas línguas, sabem muitas coisas, mas não sabem contar histórias".

O diretor do festival admite que "embora seja muito raro acontecer, estou de acordo com todas as decisões do júri". Foi premiado na competição internacional "um filme feito em pandemia e que é uma revisitação de Viena dos últimos dias em que se podia fumar nos espaços públicos. O que nós vemos no filme é Viena sem pessoas, que é uma coisa difícil de fazer. Nem Hollywood conseguiria, mas foi a pandemia que tirou as pessoas das ruas". O filme português premiado "é uma viagem à cabeça do Rui Reininho. A Viagem do Rei é um filme da secção Transmission" (o filme realizado por João Pedro Moreira pode ser visto hoje, no Passos Manuel, às 16 horas). O filme sobre Reininho é apresentado como "uma experiência surreal, feita de mergulhos psicanalíticos na infância, dos excessos anárquicos da adolescência e da confluência espiritual da maturidade. Um road movie mental (filmado por todo o país, mas dando um destaque especial ao Porto) feito em composições de tirar o fôlego, nas quais o músico e poeta coloca a coroa e abre o coração".

Já o filme da portuguesa Susana Sousa Dias, Viagem ao Sol, "retrata um episódio da nossa história muito pouco conhecido. Um filme maravilhoso que conta a história das crianças austríacas que vieram para Portugal no pós guerra apanharem sol e fazerem um tratamento com o clima que nós temos, que é fantástico e recuperarem das más memórias, com mazelas físicas e psicológicas muito grandes pela guerra que sofreram", diz Dario Oliveira.

A noite de hoje (22h) vai ter um momento alto, também no Passos Manuel, com o lançamento de Louisville (há algumas semanas esteve em destaque n"O Estado do Sítio da TSF), um álbum em vinil "sobre a atualidade política, racial, social e económica dos Estados Unidos da América".

Trata-se de uma edição de 48 páginas, com fotografias, desenhos e textos acompanhados de um disco em vinil, que tem por base uma reportagem do jornalista Pedro Sousa Pereira e do fotógrafo Mário Cruz (duas vezes distinguido com o World Press Photo) durante as últimas eleições presidenciais nos EUA, em 2020, um ano marcado por sublevações sociais e pela violência policial que acabou por afirmar o movimento Black Lives Matter. O trabalho dos repórteres traduz-se nas entrevistas e sons registados em vários estados do país (da Flórida até à Pensilvânia), que agora aparecem "tratados por uma série músicos portugueses: Óscar Pinho, Guilherme Lucas, Crystal Cabinet, Luís Vaz Patto, Francisco Cerqueira, LÖDO (Luís Vaz Patto, Hélder Pachorro e Luís Antero) e Thee Magnets (Carlos Moura, João Calheiros e Maurício Mau Mau)". Com um objectivo social e solidário: "a totalidade dos lucros desta edição" reverte para a Jail Guitar Doors, organização que leva música e guitarras às cadeias dos EUA.

O Porto Post Doc de 2023 acontecerá de 17 e 25 de novembro: "a grande novidade é que irá acontecer finalmente no Cinema Batalha".

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