"Restos do Vento": Tiago Guedes solta o chicote dum passado que vem ter ao futuro

Tradições pagãs, culpa, medo e violência. O passado volta a assombrar a pequena aldeia do interior, onde Laureano vive à margem da comunidade.

"O vento vai fechando, simbolicamente, o cerco às personagens", explica o realizador, que aqui interroga o poder do coletivo sobre o indivíduo, ou dos fortes sobre os fracos. Donde vem a violência que oprime e humilha? Restos do Vento, chegou às salas portuguesas.

É dia de ritual na aldeia, e os rapazes percorrem as ruas, à caça das raparigas.
Com capuzes e fatos de sarapilheira, eles cercam as mais novas para fazer cumprir a tradição... Começa o cerco e adiante escutamos uma ladainha:

"Vem o vento do deserto/ misturar o errado e o certo
Vem o vento, sopra forte/ não é ele que traz a morte
O amor e o desamor/ sofrem do mesmo calor
Cala agora o sofrimento/deixa só soprar o vento."

Tiago Guedes e Tiago Rodrigues partilham o argumento: "Esta ladainha foi escrita para recriar a fusão de várias ladainhas destes rituais de iniciação."

Aqui chicoteiam-se as raparigas, mas "a mentalidade está por todo o lado, a necessidade da humilhação, o poder do coletivo sobre o indivíduo ou dos mais fortes sobre o mais fracos" salienta o realizador Tiago Guedes, que neste filme quis refletir sobre a violência, seja um ritual do interior mais profundo, ou as praxes da cidade grande. "É uma forma de agir e de pensar e que fica subterrânea, há uma falta de respeito e uma necessidade de subjugar, e passa de geração em geração". Outra das ideias passa por acreditarmos que se fizermos o Bem seremos recompensados, "mas não é bem assim na realidade".

O filme percorre esta fronteira, seguindo o tempo e os passos vadios de Laureano, personagem interpretada por Albano Jerónimo, o "tolo" ostracizado pela aldeia, cuja companhia são os cães abandonados. Como ele.

Até que o passado vem ter ao futuro.
E o Vento vai fazendo o cerco, num desenho de som cuja intensidade vai começando a oprimir, "destapando as culpas, os traumas e o medo que deturpam a forma de olhar o mundo."

O filme foi rodado em Meimão, aldeia perto de Penamacor. "Precisava do espaço de uma comunidade pequena, para realçar a pureza da personagem do Laureano", conta Tiago Guedes, que realça a residência dos atores no espaço." Foi um tempo abençoado e fundamental para irmos fundo, ou ficaria tudo muito à superfície, e este é um grupo de pessoas com quem trabalho frequentemente." Nuno Lopes Isabel Abreu, João Pedro Vaz e Gonçalo Waddington, num elenco a que se juntam actores mais jovens, como Leonor Vasconcelos.

Depois do cinema, Restos do Vento, chegará numa versão série, em três episódios, à RTP.

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