O ministro de Salazar que singrou na democracia. Cem anos de Adriano Moreira

De origens humildes, o homem que se tornaria um respeitado advogado, um aclamado professor universitário e uma das grandes figuras históricas do CDS, foi, antes de tudo isso, uma peça no xadrez do Estado Novo. Adriano Moreira celebra, esta terça-feira, cem anos de vida.

"Ele diz esta coisa simples: 'Se eu continuar a aprovar as suas reformas, eu nem sequer posso garantir que continuarei a poder chefiar o Governo. E, portanto, vamos mudar de política'. Foi quando eu lhe disse (e isto é rigorosamente assim): 'Então acaba de mudar de ministro!'." A conversa entre Salazar e Adriano Moreira, aqui narrada pelo próprio, haveria de ficar para a história.

Era o ano de 1963 e as políticas do então ministro do Ultramar não agradavam ao ditador, que temia pela sobrevivência do regime.

Com esta troca de palavras chegavam ao fim os dois anos de governação de Adriano José Alves Moreira, que tinha assumido a pasta em 1961, depois de outros dois anos já enquanto subsecretário de Estado da Administração Ultramarina. Anos em que levou a cabo reformas - mudanças que incluíram a abolição do Estatuto do Indigenato (a lei que negava a cidadania portuguesa aos habitantes das colónias), a implementação de um Código de Trabalho Rural e a criação do ensino superior nas colónias, com o arranque de universidades em Angola e Moçambique.

A discordância com algumas opções do Estado Novo já vinha, contudo, de trás. Ainda na juventude, Adriano Moreira alinhara na oposição ao regime salazarista, fazendo parte de uma lista do Movimento de Unidade Democrática. E antes de integrar o governo de Salazar, chegou mesmo a estar preso na cadeia do Aljube, onde dividiu cela com o líder socialista Mário Soares. Tudo porque, enquanto advogado, defendeu a família de um general - José Marques Godinho - que acusava de homicídio um ministro Salazarista - Fernando dos Santos Costa, que detinha a pasta da Guerra...

E foi, de facto, pela advocacia - e não pela política - que começou o percurso de Adriano Moreira. Nascido em 1922, em Grijó de Vale Benfeito, em Macedo de Cavaleiros - filho de um polícia de origens humildes, que insistiu que os filhos fossem para a universidade -, mudou-se, ainda em criança, para Lisboa, onde havia de tirar o curso de Direito.

Depois de alguns anos enquanto jurista na função pública e no privado, lança-se como professor universitário na Escola Superior Colonial - o atual Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas -, de que seria, mais tarde, diretor. Foi aí que apostou na área da Geopolítica e que se dedicou ao lusotropicalismo, que o aproximou mais do Estado Novo.

Já enquanto governante do regime, esteve por trás da reabertura do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde - sob o novo nome de "Chão Bom" -, para onde eram enviados os opositores políticos nas colónias.

Depois do 25 de Abril, junta-se ao CDS, partido do qual chega a ser presidente entre 1986 e 1988, e assume, até 1995, o lugar de deputado na Assembleia da República - onde hoje se senta a filha, Isabel Moreira - mas a representar uma cor ideológica muito diferente, na bancada socialista.

Adriano Moreira foi ainda membro do Conselho de Estado, apontado pelo CDS, entre 2015 e 2019. Conta com mais de uma dezena de condecorações, nacionais e internacionais. A última, já este ano, a Grã-Cruz da Ordem de Camões foi o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa quem fez questão de lha entregar, em mãos, em casa.

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