"Pluralismo hoje é muito maior." Cavaco teve primeira maioria absoluta em democracia há 35 anos

Ex-deputado Jorge Lacão recorda a dificuldade que os deputados tinham para conseguir confrontar o primeiro-ministro, que raramente ia ao Parlamento.

Há exatamente 35 anos Portugal teve a primeira maioria absoluta em democracia. Foi em 1987, com o Governo de Aníbal Cavaco Silva. O PSD conseguiu 51,82% dos votos. Jorge Lacão, que na altura era deputado pela bancada do PS - cargo que deixou em novembro depois de 38 anos -, destaca que são muitas as diferenças entre a realidade da maioria de Cavaco e a maioria que tem agora António Costa.

"Nessa ocasião, quando a maioria absoluta se registou pela primeira vez, é como se vivêssemos num mundo a preto e branco em contraste com o mundo colorido dos dias de hoje porque vivíamos num contexto em que o pluralismo na sociedade portuguesa era muito menor. Recordo, por exemplo, que só tínhamos um canal oficial de televisão e mesmo depois quando se deu, um pouco mais tarde, a privatização dos canais de televisão houve uma certa lógica de opção política e ideológica que continuou a condicionar, de alguma maneira, o espectro da pluralidade na comunicação social", explicou à TSF Jorge Lacão.

O ex-deputado recorda a dificuldade que os deputados tinham para conseguir confrontar o primeiro-ministro e lembra também que o regime de funcionamento da Assembleia da República era muito diferente. O primeiro-ministro quase só estava presente no Parlamento uma vez por ano.

"Tirando os momentos de investiduras dos governos ou a eventual apresentação de uma moção de censura tínhamos a presença do primeiro-ministro quase apenas uma vez por ano no Parlamento. Isso diz tudo da enorme diferença de possibilidades que os partidos da oposição tinham para fazer valer as suas posições de alternativa. Recordo até que o regime da Assembleia, depois de algumas revisões, era um regime completamente draconiano em que essas possibilidades de participação mais plural dos partidos da oposição tinham sido drasticamente limitadas. Isto significa que o pluralismo hoje e o contexto aberto da atividade política é, de longe, muito maior", recordou o ex-deputado.

Em junho, o antigo Presidente da República Cavaco Silva desafiou o primeiro-ministro, António Costa, a "fazer mais e melhor" nesta legislatura, em que o PS conta com maioria absoluta na Assembleia da República, do que os seus dois governos de maioria absoluta, entre 1987 e 1995. Jorge Lacão vê aqui um desafio e diz que não se devem comparar épocas e contextos diferentes.

"Se essa expressão de vontade tivesse sido feita de boa-fé, todos desejam que o futuro seja sempre melhor do que o passado. Se representou, como presumo que tenham representado, uma espécie de desafio, a verdade é que também temos contextos muito diferentes. Vivemos no rescaldo de uma pandemia que ainda não nos deixou, com o problema das consequências económicas e sociais da guerra na Ucrânia e também com a situação devastadora dos incêndios que nos têm assolado este verão. Tudo isto são contextos muito difíceis que criam condições muito adversas para um governo exercer as suas funções e, portanto, é também muitas vezes difícil e meramente arbitrário comparar épocas em contextos completamente diferentes", acrescentou o socialista.

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