Ajudar "é a minha terapia". A história de Johnson Semedo, o "pai" que nem todos tiveram

Aos dez anos estava a viver nas ruas, aos 12 já tinha problemas com a droga e aos 16 foi preso pela primeira vez. João Johnson Semedo cumpriu, saiu, tratou-se, e nunca mais pegou "nem num cigarro" porque encontrou uma terapia que não mais abandonou: ajudar, apoiar e mudar a vida de centenas de jovens na Amadora. Veja o documentário.

"Um segundo pai", mas também "um pai que nunca tive". Johnson Semedo era, para as pessoas com quem trabalhava na Cova da Moura, tudo isto, mas também muito mais.

Chegou ao bairro com dois anos, já depois de o pai ter vindo de São Tomé à procura de um outro futuro, de uma "vida melhor".

Johnson cresceu no Beco Santa Catarina e, aos dez anos, fugiu de casa. Foi viver para as ruas, e em seis meses entrou "por outros caminhos". Começou por "snifar cola", passou para o haxixe, foi até à heroína e chegou à cocaína. Aos 12 já tinha uma relação "complicada" com as drogas e, aos 16, foi preso pela primeira vez por "pequenos furtos".

Esteve preso durante seis meses. Saiu e, após cinco meses na rua, com pena suspensa, voltou a ser preso. A nova pena foi de 14 anos de prisão.

Destes, cumpriu dez, os suficientes para não ver a sua casa, naquele beco, ganhar um segundo andar. Quando deixou a prisão, saiu "viciado", mas com o objetivo de se tratar para dar descanso à mãe, que viria a morrer pouco tempo depois. O choque atirou-o de novo para as drogas. Recomeçou o tratamento e nunca mais pegou "nem num cigarro".

Assim foi parte do percurso de Johnson, num relato feito pelo próprio para um documentário de 2019, com realização de Matilde Vieira de Almeida, sobre a Associação Johnson.

Ajudar os outros, com a ajuda das "pessoas do bem", passou a ser a sua "terapia". Agora, a academia é uma IPSS e foi candidata ao Prémio Manuel António da Mota, atribuído na última semana à Associação Reencontro.

João Semedo Tavares morreu esta quarta-feira, aos 50 anos, devido a problemas de saúde. O trabalho com jovens carenciados é o legado que deixa e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vai reconhecê-lo com uma condecoração a título póstumo, como revelou na TSF.

Ironia do destino, Johnson já revelava, em 2019, como é que podia "morrer feliz". O desejo era simples: "Ver todos os miúdos que foram acompanhados por mim serem pais dos filhos deles, conseguirem ser honestos na vida e seguir o seu caminho. E ver a Academia a andar, não comigo, mas com miúdos que passaram na pedagogia e na formação, serem eles a tomar conta do barco. Isto seria morrer feliz."

Terá razões para sorrir. Os testemunhos de quem trabalhou com Johnson ou recebeu dele o apoio que não encontrou em mais lado nenhum estão no vídeo acima.

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