Reportagem TSF. As memórias não conseguem ficar adormecidas na Ribeira Seca
Crise sísmica nos Açores

Reportagem TSF. As memórias não conseguem ficar adormecidas na Ribeira Seca

A TSF encontrou o dia-a-dia de uma freguesia, no concelho da Calheta, onde o cultivo da terra é a principal ocupação. Apesar da zona de maior risco estar a quase 30 km de distância, as memórias de um passado em que a terra tremeu continuam bem vivas.

Os dois baldes que traz nas mãos estão cheios de batata-doce. É na Ribeira Seca, uma das maiores freguesias da ilha de São Jorge, que encontramos José Constantino. De todos os lados, vislumbra-se os campos verdes de perder de vista, habitados pelas vacas, que vão mugindo e pintando o som do silêncio das redondezas.

De galochas e baldes em punho, depois de umas boas horas de trabalho, o jorgense concentra esforços no quintal que tem mesmo ao lado de casa. Vemo-lo numa das ruas mais estreitas da freguesia, a tratar da horta e tentar manter a normalidade. Ali mesmo ao lado, em casa, José tem o pai ao seu cuidado que, com 101 anos de idade, veio do lar em Velas para a casa do filho, onde está mais protegido face ao que pode acontecer. Mas as memórias dos sismos ficam mais vivas nesta altura.

Paula também tem também uma data bem marcada na memória. Tinha apenas três anos, mas lembra-se bem do sismo que abalou a ilha no primeiro dia de 1980. "A família estava toda reunida na casa da minha avó. Estava com uma amiga, e quando começou tudo a tremer virei-me para ela e disse que a casa estava a achar piada, que também estava a rir", conta. Até ao dia de hoje já sentiu mais sismos, e a maturidade que vem com a idade permite-lhe agora perceber exatamente quando pode estar para chegar mais um abalo.

A preocupação, também nos mais novos

Por estes lados, não há muitos jovens. Marta é das poucas que vemos. Com mais dois amigos, percorre as ruas da Ribeira Seca. A escola está fechada e, por isso, a jovem está sem aulas. Conta que chegou a esta freguesia na sexta-feira, porque a "família estava com medo que acontecesse alguma coisa". O grupo de amigos está também a aproveitar os tempos livres para um ou outro jogo de futebol. Tudo o que possam fazer é pouco para ocupar o tempo livre, que nesta altura é muito.

É do lado dos mais novos que também chegam alguns sinais que mostram que a preocupação tem sido transversal a várias gerações. "Tenho uma sobrinha que me diz que tenho de me meter debaixo de uma mesa, mas que não posso mesmo deixar nem as mãos nem os pés de fora", conta Paula entre risos. Todas as mudanças dos últimos dias também têm impacto na vida das crianças e adolescentes jorgenses. Por mais que se queira fugir ao tema, as conversas vão incontrolavelmente lá parar. À medida que passam pelo terreno de José Constantino, os poucos carros param, sempre com uma pergunta na algibeira: "Está tudo bem? E a família?". Todos esperam o melhor, mas as memórias fazem questão de relembrar o pior.

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