"Certificado digital de vacinação? Mas o que vem a ser isso?"

Num país cada vez mais envelhecido, há inúmeros locais onde muitas pessoas não têm ou não sabem lidar com a internet e obter um certificado digital de vacinação é algo impossível.

Em Alcoutim, um concelho do interior algarvio, que, de acordo com o último Censos, perdeu 13,6% da população, há muita gente que vive isolada nos montes. Quando ouvem o Governo dizer que é preciso obter um certificado digital de vacinação, nem sabe como fazê-lo e muitos nem sabem o que isso é.

É o caso de José Lopes. Vive sozinho num monte longe da sede do concelho. Os cães são a sua única companhia. Tem 85 anos. Já foi vacinado e pergunto-lhe se já tem o certificado de vacinação. "Mas o que vem a ser isso?" A filha, que o visita com frequência, explica-lhe que é o certificado que comprova que está vacinado e garante que vai ela tratar do assunto. "Eu tenho o 'cartanito' e já me têm perguntado se o tenho", responde. O "cartanito" é o cartão do fabricante da vacina, que lhe deram quando tomou as duas doses, e, por enquanto, esse tem bastado.

Nos seus 85 anos, trabalhar com a net e tirar o certificado digital de vacinação é algo impensável. A vacina também não lhe traz grande segurança. "Foi uma vacina muito feita à pressa", diz, desconfiado. José Lopes lembra-se dos pais lhe contarem sobre a crise da pneumónica que ceifou muitas vidas sobretudo de jovens. "E isso durou muitos anos", lembra.

Desde que terminou o confinamento, José Lopes tenta ir uma vez por semana a Alcoutim fazer os recados de que precisa e rever alguns amigos. "Agora parece que estamos mal uns com os outros", lamenta. Tempos diferentes e com máscara é tudo mais complicado.

Este homem de 85 anos é visitado com frequência pela Cruz Vermelha de Tavira que o acompanha.

Neste concelho onde são mais os funerais do que os nascimentos e onde vivem pouco mais de 2.500 pessoas, a Covid-19 também já fez vitimas. Por isso, José Lopes mantém um olhar atento sobre o número diário de mortes anunciado pela Direção-Geral da Saúde.

"Dantes eram 2, 3, agora é 10, 12, 15. Está a aumentar," lamenta. Diz que não tem medo da morte, mas, por enquanto, mesmo habitando neste sítio tão isolado, continua com muita vontade de continuar por cá e de contar as suas inúmeras histórias de uma vida preenchida.

LEIA TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de