Despesa do IPO de Lisboa com medicamentos aumentou 50% em três anos

Este aumento deve-se ao "maior número de medicamentos que é aplicado a cada doente", bem como ao aumento do "preço unitário dos medicamentos".

A despesa do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa com medicamentos aumentou 50% nos últimos três anos, representando atualmente cerca de dois terços dos gastos da instituição.

"Podemos dizer que gastamos dois terços em medicamentos e, se calhar, os medicamentos não têm dois terços da importância no tratamento do cancro, nomeadamente nos tumores não hematológicos, que é essencialmente cirúrgico", observou o presidente do IPO, João Oliveira.

O médico oncologista salientou que a cirurgia é o tratamento e até a cura da maior parte dos cancros, mas admitiu que esta despesa com medicamentos "é inevitável" e que "não é um problema específico do IPO de Lisboa, não é um problema específico de Portugal, mas é um problema".

Analisando a evolução da despesa com medicamentos nos últimos três anos, precisou que, em 2019, foi de 46 milhões de euros, em 2020 aumentou para 53 milhões e no ano passado a estimativa aponta para um valor acima de 66 milhões.

Sobre as razões deste aumento, afirmou: "O número de doentes tratados não aumentou, o que aumentou foi o número de medicamentos que é aplicado a cada doente e aumentou sobretudo o preço unitário dos medicamentos".

"Não há nenhum medicamento que venha mais barato do que o anterior e, muitas vezes, medicamentos que se tornam mais baratos, porque já são mais antigos, são substituídos sempre por medicamentos mais novos e mais caros, às vezes, sem um acréscimo correspondente de benefício", sustentou.

Mas, disse, "é assim que o mercado funciona. O que é certo é que quer em Portugal quer nos outros países não parece ter diminuído a disponibilidade para pagar".

João Oliveira sublinhou que as empresas farmacêuticas vão colocando os medicamentos no mercado ao preço que percebem que quem compra está disposto a pagar e, vincou, "tem sido impossível até agora romper esta cascata".

"Há 'démarches' a nível europeu e a nível internacional, mas não vi grandes resultados. É quase um fatalismo", criticou.

Questionado se a despesa também aumentou por serem medicamentos inovadores, comentou que geralmente quando nascem já vêm com "cara inovadora" e já vão ser pagos como inovadores.

"Também é um vício de prática que precisava ser corrigido e que eu espero que a literacia sobre a saúde, o conhecimento e a compreensão do que se passa exatamente na prestação de cuidados venha a corrigir isto no futuro, mas é um caminho prolongado", lamentou.

O presidente do IPO de Lisboa, que está prestes a terminar o seu mandato, notou que enquanto cada nova contratação "é escrutinada finamente" pelos ministérios da Saúde e das Finanças, mesmo que seja para empregar uma pessoa com o ordenado mínimo, já no que respeita a "esta enorme despesa com medicamentos há muito pouco escrutínio".

"Percebemos que isso é um sinal de confiança por parte do Governo e das outras entidades escrutinadoras sobre a utilização que fazemos dos medicamentos, mas também por isso é que um instituto como o IPO se sente na obrigação de avaliar o mais rigorosamente possível de que forma é que está a fazer essa despesa", defendeu.

No seu entender, isso é uma obrigação do Instituto até pelos ensinamentos que pode dar para o resto do Serviço Nacional de Saúde sobre a utilização de medicamentos.

"Queremos fazer jus à confiança que em nós depositam perante as entidades de que dependemos, uma confiança que nos permite lidar com estas despesas enormes, mas achamos que devemos corresponder a essa confiança com maior investigação sobre a efetividade destes tratamentos", reconheceu João Oliveira.

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