"O 25 de Abril levou a democracia para dentro da sala de aula"

Uma professora que lecionou antes e depois da revolução de Abril desfia as memórias de tempos em que o autoritarismo nas escolas foi substituído pela liberdade de pensamento.

As recordações de Odete Xarepe como professora antes do 25 de Abril confundem-se com as do tempo em que era aluna. Porque quando começou a lecionar quase nada havia mudado. As escolas continuavam a dividir meninos para um lado, meninas para o outro. Mas a separação por sexos até era o mal menor.

"Na minha sala enquanto aluna havia três filas, a das meninas adiantadas, das médias e a que era chamada das burras, as que tinham mais dificuldades", conta. "Havia castigos corporais, por exemplo, quem tivesse mais de dois erros, levava uma reguada por cada erro", lembra.

Odete Xarepe formou-se no antigo Magistério Primário em 1959, tempo em que os namorados das alunas não podiam sequer circular nas redondezas.

Recorda também que, enquanto professora, tinha de obedecer às normas severas do Ministério da Educação.

"Havia um horário rígido a que tínhamos de obedecer. Por exemplo recordo-me que à quinta feira de manhã era a aula de religião e moral e ai de quem não estivesse a dar essa disciplina quando um inspetor entrasse na sala!".

Pedagogia também não existia na altura. Os manuais escolares no tempo de Salazar e mais tarde no de Marcelo Caetano perduravam no tempo e defendiam os valores do Estado Novo." Deus, Pátria e Família". Na sala de aula havia sempre o retrato de Salazar, o presidente do Conselho, o do Presidente da República e também um crucifixo.

Esta professora, que lecionou durante 41 anos, admite que o ensino autoritário estava normalizado e não esconde que também chegou a usar a régua. Considera a Educação e o Serviço Nacional de Saúde as maiores conquistas do 25 de Abril.

A seguir à revolução participou nas primeiras reuniões que deram origem ao Sindicato dos Professores e foi das primeiras a juntar-se ao MEM, o Movimento da Escola Moderna, uma associação clandestina no tempo da ditadura que só foi possível pôr a funcionar em Portugal depois do 25 de Abril, mas que alterou toda a forma de ensinar.

"A grande conquista do 25 de Abril foi praticar a democracia na sala de aula, construindo-a com os alunos", afirma convicta.

Ainda hoje esta professora reformada, já com 80 anos, participa nas reuniões do Movimento da Escola Moderna.

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