"Próxima Estação": bem-vindos a bordo de uma crónica diária sobre a ferrovia nacional

Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

Antes de quaisquer outras palavras, faça-se aqui já uma ressalva: eu sou um apaixonado por comboios, estações, ferrovias e viagens (e pela rádio, claro). Feito este pequeno introito, nos próximos oito dias, vamos (eu e a TSF) viajar pelo país, de comboio, com a mochila às costas e o gravador na mão, para captar e traçar o retrato visual e sonoro da ferrovia nacional.

Todos os dias aqui neste espaço de crónica, havemos de misturar factos com opiniões, partidas com chegadas, histórias e memórias, passados e futuros.

O ponto de partida é a estação de Luso-Buçaco, se é que ainda lhe podemos chamar dar o nome de estação: mantém-se o edifício, a desconfortável sala de espera, os horários colados com fita-cola, os jardins desarranjados (de uma estação que ganhou o 1º prémio de estação florida em 1957), onde param apenas os comboios regionais da linha da Beira Alta, deixando a vila termal desprovida de qualquer intercidades. Já nem ousamos lembrar os tempos em que ali parava o Sud, o comboio internacional, que deixava diretamente os turistas que vinham de fora do país e que, ainda hoje, é lembrado pelos mais velhos... Tal como se lembram das bilheteiras a funcionar, do apito do chefe da estação ou mesmo da senhora que vendia bilhas de água de Luso no cais.

Dali, do cais da linha 1 (agora já não há mais nenhuma, já houve três) partiremos rumo à Guarda, Covilhã, Elvas, Entroncamento, Beja, Faro, Vila Real de Santo António, Lagos, Lisboa, Caldas da Rainha, Coimbra, e regressaremos a Luso-Buçaco. Escolhemos percorrer a paisagem nacional em comboios regionais, pelo menos o maior tempo possível, mas há trajetos em que essa vontade se viu desfeita logo à partida. Alguns dos nossos pontos de partida e de chegada apenas são ligados por IC.

É conhecida a aposta do atual governo na ferrovia e a relativamente recente apresentação do plano ferroviário 20/30 não deixou dúvidas de que, pelo menos nos discursos, há uma intenção clara de investir neste meio de transporte. Contudo, muitos estão expectáveis de perceber quando e onde acontecerá o "descarrilamento" deste programa de intenções, tendo em conta o histórico de desinvestimento que nos assola há largos anos e que foi de alta velocidade nos anos 80 e 90, do século passado.

Queremos, por isso, com esta viagem, perceber as mais valias de investimentos em linhas consideradas como fundamentais para a economia nacional - passaremos, por exemplo, na recém-reaberta linha da Beira Baixa, entre a Guarda e a Covilhã, depois de percorrer a Beira Alta, que está já a ser intervencionada. Duas ferrovias eletrificadas, que contrastam com um Alentejo ainda em marcha lenta, grande parte a gasóleo e com horários desajustados. Nesta viagem, havemos de chegar a Elvas no único comboio regional que existe na linha do Leste, mas também descer à região mais turística do país, o Algarve, que continua teimosamente a ser percorrida por automotoras a gasóleo e aquém da evolução esperada para um país desenvolvido em pleno século XXI. No regresso, entre Lisboa e Coimbra, optaremos pelo Oeste e vamos serpentear até às Caldas da Rainha, numa linha que está com a reabilitação (será?) em cima da mesa e discutida há algum tempo, mas que pode ficar a meio gás. Pelo menos, dos rumores não se livram... Há quem por lá fale que, enquanto o comboio não ganhar em tempo ao automóvel nunca será recurso para uma deslocação regular (trabalho, por exemplo) para a capital.

Pelo caminho, vamos parando, aqui e ali, em estações e apeadeiros, para deixar entrar depoimentos, histórias, opiniões... Diariamente, neste espaço, trazemos a crónica do dia da viagem de comboio e, desde já, prometemos, em antena, uma Grande Reportagem no final. Uma coisa é certa: todos e todas são bem-vindos e bem-vindas a bordo até à "Próxima Estação".

LEIA AQUI TODAS AS CRÓNICAS DESTA VIAGEM

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