Sai uma cerveja fresquinha. Tudo sobre "a bebida adulta mais democrática do mundo"
Dia Internacional da Cerveja

Sai uma cerveja fresquinha. Tudo sobre "a bebida adulta mais democrática do mundo"

"Servida à temperatura certa, no copo certo" e consumida "socializando, de forma responsável num espaço adequado à convivência sã". É assim a cerveja perfeita, na opinião de Tiago Brandão, confrade-mestre da Confraria da Cerveja. Porque a "cerveja perfeita está para ser inventada", diz à TSF, mas os cervejeiros conseguem servi-la todos os dias, "o que é um milagre".

A bebida alcoólica mais consumida em Portugal é celebrada esta sexta-feira, Dia Internacional da Cerveja, data assinalada em mais de 50 países na primeira sexta-feira do mês de agosto.

Ale ​​​​​​​ou Lager?

Há dezenas de cervejas diferentes, divididas por "duas grandes famílias": as Ale (de fermentação a alta temperatura, normalmente acima dos 15 graus e as Lager (de baixa fermentação, normalmente entre 7 e 15 graus).

As Lager só surgiram desde que se tornou possível controlar a temperatura na produção, "algo que há 150 anos, antes de invenção do frigorífico não era possível", explica o confrade-mestre Tiago Brandão.

Devido às diferenças no processo de fabrico, habitualmente as Ale têm notas frutadas complexas ou de especiarias, enquanto as Lager têm um sabor mais marcado pelos cereais e pelo lúpulo.

Já a cor pode variar do amarelo palha ao preto, passando por tons dourados, acobreados e castanhos, quer em cervejas Ale como Lager.

É definida principalmente pelo processo de torrefação do malte: quanto mais torrado for, mais escura será a cerveja. "Esse espetro é devido a variações muito pequeninas, percentagens pequeninas - às vezes de 2, 3 ou 4% do total de cereal - de cereais tratados com maltagens especiais."

Por outro lado, há centenas de tipos de malte que diferem uns dos outros também pela cor. Há "maltes âmbar, maltes caramelo, maltes chocolate..."

Uma cereja bem tirada

A cerveja perfeita tem de ser bem "tirada". A saber: há copos diferentes para cada tipo de cerveja e dizem os especialistas que o ideal é servir a cerveja de pressão com 45 graus de inclinação para conseguir a melhor espuma.

Recomenda-se ainda a lavagem e higienização do copo com água a alta pressão antes de entrar em contacto com a bebida, para evitar que outros sabores se juntem à cerveja.

Já a pressão da torneira de cerveja tem de estar bem afinada, nunca excedendo a medida de três bares.

Procura-se conseguir uma cerveja "viva e com a temperatura correta", aponta Tiago Brandão. Existe a ideia de que a cerveja tem de ser "bem gelada", mas na verdade a temperatura ideal varia muito de estilo para estilo.

De onde vem a espuma?

"É uma das manifestações mais exuberantes e ao mesmo tempo mais mal entendidas da cultura cervejeira", para Tiago Brandão.

A camada de espuma que se forma no cimo do copo resulta da ação do gás (habitualmente dióxido de carbono) "que ao libertar-se transporta consigo algumas moléculas que estão no líquido, nomeadamente proteínas e algumas moléculas que vêm do próprio lúpulo". Ao subirem, essas moléculas "sequestram" moléculas do gás e formam a espuma.

O objetivo é impedir a oxidação da cerveja pelo contacto com oxigénio, ajudando a reter o aroma, o gás e a temperatura. À medida que a temperatura sobe, a cerveja começa a perder dióxido de carbono e diz-se que a cerveja está "morta".

Porque é que as garrafas são escuras?

Ao contrário do que acontece em muitos países, habitualmente em Portugal as garrafas de cerveja são de cor escura (entre o laranja e o castanho ou esverdeadas). Isto deve-se a vivermos num clima com muita exposição solar, explica Tiago Brandão.

Os raios ultravioleta deterioram a cerveja, quebrando algumas moléculas, por isso o objetivo de usar garrafas escuras é proteger o líquido da luz do Sol e assim conservar melhor as suas propriedades e sabor.

As latas são igualmente eficazes para preservar a cerveja. Nem sempre foi assim: no passado o processo de enchimento era menos eficiente, já que o líquido ficava mais exposto ao oxigénio desde o momento em que a cerveja era colocada na lata até se fechar com a tampa. No caso das garrafas, sendo o gargalo mais estreito, a exposição era menor.

Hoje em dia o processo de enchimento é muito rápido, por isso o problema desapareceu e ficou reduzido a uma questão de gosto: para Tiago Brandão, "há um certo prazer em beber cerveja diretamente da garrafa".

A cerveja portuguesa é mais 'forte'?

Sentado numa esplanada com um copo na mão, é comum ouvir um turista dizer que a cerveja portuguesa é mais forte do que a da sua terra natal. "Não é verdade, mas também não é um mito", diz Tiago Brandão. "É uma questão de perceção."

"Em média, as cervejas mais consumidas em Portugal são as International Pale Lager, que variam entre os 4,8 e os 5,2 de teor alcoólico, são bastante leves e neutras no perfil - foram desenvolvidas e concebidas para privilegiar mais o convívio social e não tanto o efeito do consumo propriamente dito. São cervejas refrescantes."

"Acontece que são bebidas em conjunto com um clima que normalmente é quente, está mais agradável, e nesse contexto às vezes beber uma ou duas imperiais ou um ou dois finos pode dar uma certa sensação de se ficar com algum efeito funcional do teor alcoólico.

No que diz respeito ao teor alcoólico e perfil, a cerveja portuguesa equipara-se com a esmagadora maioria das cervejas consumidas pelo mundo fora. Há uma exceção, nota Tiago Brandão, que pode ajudar a explicar esta perceção: "No Reino Unido, as cervejas têm normalmente um teor alcoólico ligeiramente inferior [às portuguesas] - abaixo dos 4,5 e às vezes até 3,8 ou 3,7. E aí sim, há uma comparação relativamente significativa da diferença de álcool, por isso pode ter-se feito uma generalização a partir de uma especificidade geográfica, o país de origem da maior parte dos turistas em Portugal.

"Fino" ou "imperial"?

É uma discussão bem conhecida dos portugueses. A uma cerveja de pressão de 20 cl servida num copo alto pode chamar-se tanto "imperial" como "fino".

Os dois nomes têm origens diferentes: mais usada no norte, a palavra "fino" terá tido origem em Coimbra na década de 1940. Segundo o livro de memórias "Boémia Coimbrã", de A. Nicolau da Costa, o à época famoso boémio da cidade Toninho Saraiva pedia sempre "um copo de cerveja de vidro fino".

Já o termo "imperial" tem origem numa das primeiras marcas de cerveja de pressão do país, a Imperial, produzida em Lisboa na fábrica Germânia, até 1916.

Quem conhece a gíria da cerveja, pode sempre dizer 'sirva-me, se faz favor, uma...'

- Lambreta -15 cl
- Mini (garrafa), imperial ou fino - 20 cl
- Túlipa - 30 cl num copo de pé, baixo e arredondado
- Príncipe - 30 cl num copo alto e fino idêntico aos usados para imperial ou fino
- Média (garrafa) - 33 cl
- Caneca - 50 cl
- Girafa - pode levar até 1 litro
- Pint - a medida mais usada no Reino Unido, equivalente a cerca de meio litro
- Panaché - cerveja com gasosa ou sumo de limão gaseificado
- Tango - cerveja com groselha
- Diesel - cerveja com Coca-Cola

Sagres ou Super Bock?

Existem em Portugal cem cervejeiras (96 das quais microcervejeiras), dispersas por 74 localidades de 22 concelhos, mas as marcas mais consumidas são as gigantes Sagres ou Super Bock.

É outra espécie de dérbi norte/sul famoso no país: a Super Bock, do antigo Grupo Unicer, agora designado como Super Bock Group, é produzida no Grande Porto e a Sagres, da Central de Cervejas (empresa agora detida a 100% pelo grupo Heineken), em Lisboa. Cada apreciador de cerveja prefere inequivocamente uma das duas.

Uma fábrica histórica

"Num impulso modernizador" que marcou decisivamente o desenvolvimento económico do grupo UNICER (atualmente Super Bock Group), a 28 de setembro de 1964 o então Presidente da República Américo Tomás inaugurou a fábrica de cerveja de Leça do Balio, em Matosinhos.

À TSF, o Super Bock Group explica que a fábrica contava com "um elevado grau de inovação tecnológica, para além das condições de trabalho e áreas destinadas aos serviços sociais como o restaurante, assistência médica, atividades culturais e de formação".

Dos cerca de 25 milhões de litros de cerveja produzidos por ano em 1970, passados 30 anos a fábrica alcançou, em 2003, a marca dos 230 milhões de litros anuais.

A história da cerveja estende-se vários séculos antes de qualquer fábrica. No livro "Monarchia Lusitana", escrito em 1597 pelo Frei Bernardo de Brito, reza a lenda que Lísias, filho do deus Baco, trouxe a cerveja para a antiga Lusitânia e ensinou o povo a produzi-la a partir de cevada e trigo.

Acredita-se que a produção de cerveja tenha começado há mais de dez mil anos, aquando a descoberta dos cereais. A primeira referência escrita remonta a 1800 a.C., numa receita que era também oração à deusa Ninkasi, da civilização suméria. No antigo Egito usava-se cerveja para consumo, rituais de beleza e até como moeda de troca.

A cerveja engorda?

Com 20 cl, a imperial ou fino tem aproximadamente 82 Kcal. Há quem diga que a chamada "barriguinha de cerveja" não é culpa do que está no copo, mas antes dos aperitivos doces ou salgados que o acompanham.

Um estudo publicado em julho no Journal of Agricultural and Food Chemistry por investigadores do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, e que também envolveu investigadores da NOVA Medical School - Faculdade de Ciências Médicas, concluiu que o consumo de cerveja não contribui para aumento do peso e massa gorda, nem "interfere significativamente em biomarcadores cardiometabólicos", como a glicose, colesterol e triglicéridos.

Impactos para a saúde

Esse mesmo estudo defende que "beber cerveja faz bem à microbiota intestinal", fator que tem sido associado à prevenção de doenças crónicas como a obesidade, diabetes e condições cardiovasculares.

No decorrer da investigação, a equipa recrutou homens saudáveis, entre os 23 e 58 anos, para participarem num ensaio, ao longo de quatro semanas, que consistia em beber diariamente 33 cl de cerveja, com ou sem álcool.

Já outro estudo recente, também publicado em julho passado, conclui que a cerveja não traz qualquer benefício para a saúde dos homens com menos de 40 anos e alerta que estes não devem beber mais do que 38 ml de cerveja por dia, o equivalente a menos de um quarto de uma mini, sob risco de prejudicar a saúde (as mulheres na mesma faixa etária podem beber um pouco mais).

Por outro lado, os autores deste estudo, investigadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, concluíram que para pessoas com mais de 40 anos um copo de cerveja pode ajudar a evitar doenças cardíacas ou a diabetes. E para os maiores de 65 anos, os riscos para a saúde que derivam do consumo de álcool só são atingidos a partir do quarto copo.

O estudo debruçou-se sobre 30 anos de dados de pessoas entre os 15 e os 95 anos, de um total de 204 países.

Ingredientes

A cerveja é "a bebida adulta mais democrática do mundo", destaca Tiago Brandão (excluindo o leite materno e a água). "Os cervejeiros partilham entre si, não fazem caixinha dos seus segredos (ao contrário do que acontece com outras bebidas onde existe uma cultura de protecionismo)".

A grande maioria das cervejas tem pelo entre 90 a 95% de água; lúpulo (Humulus Lupulus), uma trepadeira perene de origem europeia cujas flores fêmeas apresentam grande quantidade de resinas amargas e óleos essenciais; e malte, produto que deriva da germinação de cereais que é depois seco e torrado. Em quantidade reduzida, a cerveja pode incluir ainda açúcar e xaropes para alterar o sabor. Existem ainda cervejas feitas a partir de arroz.

A Brewers of Europe, organização que representa 9500 empresas cervejeiras europeias, quer que até ao fim do ano os rótulos de todas garrafas e latas de cerveja na União Europeia incluam informação sobre os ingredientes e valores energéticos. Será assinado em setembro um memorando de entendimento com a Comissão Europeia nesse sentido.

Em números

Em 2020, os portugueses beberam cerca de 469 milhões de litros de cerveja - 46 litros per capita -, bem menos do que o habitual num ano marcado pela pandemia (em 2019 foram consumidos 548.258.000 litros de cerveja em Portugal, uma média de 53 litros per capita), segundo os dados mais recentes da Associação Nacional de Cervejeiros de Portugal.

Cerca de 1,5% do PIB português (2.602 milhões de euros) tem origem no setor cervejeiro, que emprega, direta e indiretamente, quase 52 mil pessoas.

Segundo um estudo da Universidade Nova SBE sobre os Impactos Macroeconómicos do setor Cervejeiro, realizado em 2021 para a Associação de Cervejeiros de Portugal, cada euro gasto no setor cervejeiro gera entre 1,72 e 2,48 euros de produção total na economia portuguesa.

Cada colaborador do setor contribuiu, em 2019, com cerca de 112.633 euros para a economia portuguesa, duas vezes mais do que o valor médio para um trabalhador de outro setor.

De acordo com os últimos dados (de 2019) foram produzidos 739 milhões de litros de cerveja, mais 15 milhões de litros que o ano anterior, de acordo com os dados do Eurostat. Do total produzido, 548 milhões de litros destinaram-se ao consumo doméstico e a restante produção teve como destino a exportação.

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