Seca. "É o que se pode ver, os animais já comeram tudo"

Numa agropecuária situada no barrocal algarvio, as cabras já não têm pasto. Está tudo seco. São alimentadas à base de ração, palha e feno verde. Tudo tem de ser comprado.

"Eu andar aqui de calções e t-shirt em fevereiro já mostra que o tempo não vai certo", afirma José Miguel Gonçalves ao entrar no estábulo. O agricultor mostra o seu rebanho de cabras. São 225 cabeças de gado, 175 cabras e 50 cabritos que nasceram há pouco tempo. "Aqueles três lá ao fundo nasceram hoje", aponta.

"Como pode ver elas estão a comer na manjedoura. Deviam estar na rua, mas tenho que lhes dar comida aqui", acrescenta. Alimentar todo este gado tem sido, nos últimos tempos, uma dor de cabeça para o agricultor que gere a sua agropecuária na zona de Benafim, no concelho de Loulé. A seca traz tempos difíceis. "Os animais já comeram tudo o que há para comer, não chove, a erva não se reproduz e somos obrigados a dar comida à manjedoura o ano inteiro, o que encarece os custos de produção em cerca de 30%", acentua.

Habitualmente as cabras comem dentro dos cercados, mas este ano é preciso também levá-las fora, e no terreno à volta, as árvores já estão despidas de folhagem. Têm servido de pasto aos animais. "O que elas precisavam mesmo era de erva fresca", explica o agricultor. José Miguel vende o leite produzido pela suas cabras para duas queijarias da região e avisa que dentro em pouco os preços também devem aumentar. "A produção não pode suportar estes custos."

O agricultor faz também produção de amendoeiras, alfarrobeiras e oliveiras.

Sobretudo as alfarrobeiras, que são árvores resistentes à seca mas que vivem sobretudo da chuva, estão a sofrer particularmente com a falta de água. "Elas estão como se estivessem em maio. Nesta altura, era para estarem pequenas e as árvores ainda a serem regadas, mas estão desfasadas", acrescenta. A produção do ano passado, que foi boa e colocou a alfarroba no mercado com preços altos, este ano não se vai repetir.

Também o furo que há no terreno e que abastece a propriedade dificilmente chegará com água até ao verão. O agricultor defende que seria necessária uma barragem na zona central do Algarve. Sem essa obra será difícil manter culturas e gado naquela zona.

Aos 41 anos e licenciado em produção animal pela escola agrária de Santarém, José Miguel queixa-se de que não tem sido fácil resistir e manter-se no setor agrícola. Veio para o Algarve em 2008 pôr em prática os seus conhecimentos nos terrenos de família. "Em 2008 ainda chovia qualquer coisa, mas daí para cá tem vindo sempre a pior, sempre a piorar", lamenta. "As expectativas eram outras, não só em termos do tempo, como das ajudas, como de falta trabalhadores, todos os fatores estão a empurrar isto para baixo."

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de