Segurança das pessoas cegas ameaçada por trotinetes. Câmara de Lisboa promete novo regulamento em 2023

A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal quer ser envolvida na preparação do documento, que vai regular a circulação e o estacionamento das trotinetes e bicicletas em Lisboa.

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove,... Mais de uma dezena de trotinetes estão espalhadas pelo passeio na Rua da Palma, em direção ao Martim Moniz, em Lisboa. É este o percurso que Carlos Carlson faz, todos os dias, até ao trabalho. "Normalmente saio aqui, sou telefonista aqui no centro de saúde, nesta unidade de saúde familiar. Normalmente, saio do serviço, vou contornando aqui o edifício,..."

Carlos tem 34 anos e é cego. De bengala na mão, vai procurando escapar aos mais recentes obstáculos na cidade. "Bicicletas e trotinetes. Têm sido bastantes, ultimamente", constata. "Até encostadas aqui às escadas já 'vi'. Quando tento encontrar a paragem do autocarro, costumo encontrar bastantes. Para mim, ainda é mais chato quando estão encostadas aos passeios, também muitas vezes no meio do passeio,... Já as 'vi' de todas as maneiras e mais algumas. Perturbam bastante o nosso caminho", admite.

A trabalhar em Lisboa, mas viver na Amora, na Margem Sul do Tejo, Carlos tem, todos os dias, de percorrer as ruas e apanhar transportes. "Normalmente, vou à procura do Metro e costumam estar trotinetes aqui, até encostadas junto às esplanadas,... Custa-me conseguir encaixar", desabafa.

"Se estiver aqui uma trotinete deitada no chão, podemos tropeçar e cair. Já me aconteceu", conta Carlos, que, garante, só por acaso é que ainda não se aleijou a sério. "Tenho tido sorte! É mesmo uma questão de sorte, porque, como aquilo é ferro, de facto, pode magoar!"

A mesma sorte não tiveram já várias outras pessoas cegas, que partiram as bengalas e magoaram-se. O presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, Rodrigo Santos, garante que há já quem evite sair de casa, com receio das trotinetes nas ruas.

"São veículos que se deslocam, de forma silenciosa, a uma velocidade maior do que a de qualquer pessoa a andar normalmente - que é algo que não devia acontecer nos passeios", nota. "Não sabemos quando nem quantos veículos desses vamos encontrar nem em que estado - se vão estar de pé, se vão estar deitados,... -, se vão estar no meio do caminho e se vamos ter que fazer uma gincana para tentarmos escapar a estes perigos."

Rodrigo Santos conta que ele próprio já teve "encontros imediatos" menos felizes com estes veículos. Recorda, por exemplo, quando se deparou com "uma trotinete deitada em frente a uma passadeira no Largo do Rato", em Lisboa. "Num contexto em que há várias faixas, em vários sentidos, e onde há um volume de tráfego bastante grande, fez com que eu tivesse de atravessar fora da passadeira. Se isto não é pôr em risco a nossa segurança, tenho dúvidas do que será", atira.

Questionada pela TSF, a Câmara Municipal de Lisboa garante que pretende impor regras para "sistematizar e normalizar a utilização de bicicletas e trotinetes na cidade". A autarquia refere que já arrancou com "reuniões de trabalho com todos os operadores que atuam em Lisboa", com vista à criação do novo Regulamento da Mobilidade Partilhada, que, adianta à TSF, entrará em vigor "a partir do início do próximo ano".

Os objetivos deste regulamento, informa a Câmara de Lisboa, serão "eliminar o número de veículos que são largados em qualquer lado, causando bloqueios à circulação pedonal, sobretudo de pessoas com mobilidade reduzida, constituindo um perigo para cegos e amblíopes, ocupando lugares de estacionamento para deficientes, obstruindo acessos a edifícios e criando um caos visual" e "restringir a circulação dos velocípedes nas zonas pedonais".

A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal pede que as pessoas invisuais sejam envolvidas no processo: "A expectativa que temos sobre esse novo regulamento é que ele seja discutido connosco e visto connosco, uma vez que somos também uma das populações que beneficiará, ou não, das soluções que forem adotadas", afirma Rodrigo Santos.

"É preciso responsabilizar quem disponibiliza trotinetes, é preciso responsabilizar as próprias pessoas que as utilizam, e, para isso, é preciso haver não apenas fiscalização, mas, sobretudo, sanções para quem não cumpre", defende o presidente da associação. Só assim, garante será possível "devolver às pessoas cegas a liberdade de sair de casa sem medos, num espaço público que é de todos".

A Câmara de Lisboa refere que "até julho deste ano foram recolhidas mais de 500 trotinetes por parte da Polícia Municipal" e que, por cada trotinete removida, há uma contraordenação, no valor de 15 euros, sendo também aplicada "uma taxa de remoção no valor de 41 euros e taxa de parqueamento no valor de 17 euros".

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