Trabalhadores da TAP admitem novos protestos e exigem a ministro: "Assuma que errou"

Sindicatos acusam a companhia aérea de má gestão e dizem estar "desgastados e cansados".

Os cerca de mil trabalhadores da TAP que estão esta terça-feira num protesto em Lisboa, que junta pilotos, pessoal de cabine e técnicos de manutenção, admitem avançar com novas manifestações contra aquilo que consideram ser a má gestão e exigem ao ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, que assuma que errou.

Em declarações aos jornalistas, depois de entregarem um manifesto ao ministro da tutela, os representantes dos três sindicatos em protesto - Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) e do Sindicato dos Técnicos de Manutenção de Aeronaves (SITEMA) - alertaram para os "erros de gestão" levados a cabo pela companhia aérea (nomeadamente, sobre a questão dos aviões de carga parados e a contratação de empresas externas) e pediram a Pedro Nuno Santos que reconheça que errou.

"Assuma que errou. Não vale a pena dizer que não errou porque errou", afirmou Tiago Faria Lopes, do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil.

"Não faz um único ato que consigamos dizer que foi um bom ato de gestão [no sentido] do rumo certo para a TAP. Não o está a fazer e temos dúvidas de que o fará", acrescentou.

Numa resposta ao comunicado da comissão executiva da TAP, divulgado na manhã desta terça-feira, que pede aos trabalhadores para não fazerem tábua rasa dos acordos assinados, o responsável pelo SPAC disse que a massa humana ali presente dá resposta a esse documento "ao mais alto nível", frisando que "os acordo temporários de emergência assinados com o ministro Pedro Nuno Santos, com a conivência do senhor secretário de Estado, Hugo Mendes, são acordos que não fazem sentido nenhum neste momento".

Tiago Faria Lopes acusou também a companhia de fazer exatamente o que pede aos sindicatos para não fazerem: dialogar através da comunicação social e de comunicados. "A companhia acabou de o fazer agora. Está respondido", assinalou, dando conta de uma reunião que vão ter, em breve, com a empresa.

Ainda sobre o comunicado da TAP, os sindicatos destacam a "ironia" do documento, já que foi através da comunicação social que ficaram a saber, por exemplo, da mudança da sede.

"Agora dizem que queremos fazer diálogo através da comunicação social. Se nós, hoje, temos aqui mais de mil pessoas é porque estamos desgastados e cansados (...) Os cancelamentos de voos advêm da falta de tripulantes, da falta de pilotos, de manutenção. Curiosamente, há um ano havia despedimentos, o maior erro de gestão", apontou o responsável, falando em "erros constantes por parte da empresa".

"Não estamos aqui para arranjar culpados. Queremos é soluções. Somos responsáveis. Não podemos, acima de tudo, pôr o nome da TAP na lama", acrescentou.

Tiago Faria Lopes disse que Pedro Nuno Santos sabe o que se passa na TAP e que vai, "seguramente", receber os sindicatos. Já sobre se esperam alguma mudança fruto das negociações, os responsáveis não quiseram antecipar resultados, mas admitiram avançar com novas ações de protesto como o de esta terça-feira, que classificam como "responsável e ponderado"

"Tem de ser feito, não há outra hipótese. Não pode continuar assim. Todos nós somos contribuintes. Estamos muito preocupados", reforçou.

Ricardo Penarróias, presidente do Sindicato do Pessoal de Voo da Aviação Civil, duvida do empenho da TAP na salvação da companhia. Em entrevista à TSF, o sindicalista afirmou que "não será, seguramente, através das medidas que a companhia está a tomar que a iremos salvar". "As várias medidas que temos verificado fazem-nos questionar até que ponto são viáveis para a salvação da empresa", disse.

O sindicalista pede ainda que Pedro Nuno Santos oiça os trabalhadores. "A companhia também somos nós. Mais importante do que um plano de reestruturação (...) é a paz social. E isto não tem preço", diz, sublinhando que, até agora, os sindicatos "foram responsáveis e colaborantes" e "querem ajudar a empresa".

Na sexta-feira, as direções do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) e do Sindicato dos Técnicos de Manutenção de Aeronaves (SITEMA) anunciaram o protesto, que junta "pela primeira vez na história da aviação nacional, pilotos, pessoal de cabine e técnicos de manutenção".

"No dia 16 de agosto, às 08h30, com partida do Campo Pequeno e chegada ao Ministério das Infraestruturas e Habitação, iremos mais uma vez, abdicar de folgas, férias e dias livres, garantindo assim que nenhum passageiro é prejudicado por este nosso protesto", lia-se no comunicado conjunto.

O objetivo, dizem, "é a melhoria contínua da qualidade do serviço que presta aos seus clientes e a sustentabilidade da própria empresa, mantendo os elevados padrões de segurança da operação pelos quais fomos sempre reconhecidos".

"Os trabalhadores e os passageiros estão juntos quando viajam e estão juntos nesta luta pelo alinhamento entre as opções de gestão e aquilo que o país necessita da TAP", diziam os três sindicatos, afirmando ainda que "os aviões [da TAP] não voam sem pilotos, sem pessoal de cabine e sem uma boa manutenção nem chegam a sair do chão".

Na semana anterior, o Sitema manifestou-se preocupado com "o rumo" da TAP, repudiando e lamentando "profundamente" a decisão da administração de recorrer a fornecedores externos onde trabalham técnicos despedidos pela operadora aérea.

Também o SPAC acusou a gestão da TAP de "desperdiçar" as receitas do verão com "milhões de erros" ao longo do ano, com a contratação externa de serviços.

Em comunicado, a direção do SPAC reiterou os alertas para os "milhões de erros" de gestão na TAP, "que desperdiçam as receitas geradas este verão, fruto de uma elevada atividade operacional, que comprometem a recuperação e o futuro da Empresa, bem como o esforço dos contribuintes portugueses".

Já na semana anterior, o SNPVAC tinha anunciado um pedido de reunião urgente ao Governo, depois de a TAP ter contratado uma nova prestação de serviços externa (ACMI), segundo uma nota enviada aos associados.

Na mensagem a que a Lusa teve então acesso, o SNPVAC disse que foi informado de "que a TAP recorreu a mais uma prestação externa de serviço de outra companhia, denominada por ACMI" e que "pelos vistos virou moda".

Entretanto, no sábado, a TAP afirmou à Lusa que, até à data atual, gastou menos em alugueres de aviões com todos os serviços incluídos do que em 2018 e 2019, contrariando acusações de sindicatos.

"Desde o início do ano e até à data atual, a TAP está gastar em ACMI [aluguer de aviões com tudo incluído - Aircraft, Crew, Maintenance e Insurance - avião, pessoal, manutenção e seguros] apenas 45% do que gastou em 2018 e 70% do que gastou em 2019, no mesmo período", disse fonte da TAP à Lusa.

*Com Lusa

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de