A "Voz dos Oceanos" recolhe lixo das praias
Conferência dos Oceanos

"Um camião de lixo deitado ao mar por minuto." Veleiro amigo do ambiente dá voz aos oceanos

A família Schurmann embarcou nesta aventura há mais de 30 anos. Já foram muitos os destinos por onde passaram, e em todos eles há algo em comum: a "quantidade gigantesca" de lixo nas praias e nos oceanos. Há cerca de quatro anos, com o objetivo de alertar e consciencializar todas as pessoas para este problema ambiental, nasceu a "Voz dos Oceanos".

Foi em 1974 que os pais de David Schurmann, atual CEO do projeto "Voz dos Oceanos", deram início ao sonho. Dez anos de planeamentos depois, partiram para o mar e o que era para ter durado dois anos, acabou por durar dez. Entre expedições e viagens já lá vão três voltas ao mundo num veleiro em busca da mudança, testemunhando e mostrando a realidade dos oceanos.

Em entrevista à TSF, à margem da Conferência dos Oceanos, na Altice Arena, em Lisboa, David Schurmann explica que depois de mais de 30 anos a navegar pelo mundo, a família brasileira Schurmann sentiu que estava na altura de uma transformação.

E foi assim que nasceu a "Voz dos Oceanos". Partiu do Brasil há oito meses, mas a ideia surgiu há quatro anos.

"A conceção da Voz dos Oceanos surgiu há quatro anos, depois da minha família e eu navegarmos o mundo por 35 anos, nós precisámos que algo mudasse. A gente estava com uma vontade de dar de volta para o oceano aquilo que tínhamos dado há 35 anos e nós vimos o que está a acontecer nos oceanos, demos três voltas ao mundo em veleiro, e nós somos testemunhas oculares do que está a acontecer", diz, sublinhando que "tivemos essa consciência de que precisávamos de dar voz não só aos problemas dos oceanos, mas também como é que resolvemos esses problemas".

E, por isso, a equipa de 15 pessoas em terra, entre os quais cientistas, profissionais de comunicação e jurídicos, e sete pessoas a bordo, decidiu que era preciso "mostrar o que está a acontecer para, quem sabe, as pessoas começarem a transformar e criar consciência". "Não conseguimos recolher todo o lixo. Fazemos limpeza de praias, sim, só que essas limpezas são muito mais para consciencializar as pessoas", esclarece David Schurmann, assegurando que "não ficamos sentados só falando, estamos lá, vendo, mostrando o que está a acontecer e agindo".

De acordo com a descrição de David, o cenário "é triste": "Um camião de lixo é jogado por minuto no mar, então não tem como você limpar esse lixo todo rapidamente. Primeiro temos de parar que o lixo chegue no mar, para depois começarmos a limpar", alerta.

Além de expor os problemas ambientais nos oceanos, o projeto, que conta com o apoio do Programa da ONU para o Meio Ambiente e da Plastic Soup Foundation, pretende também sensibilizar e educar as pessoas, assim como fazer com que as empresas alterem o seu modo de produção de plásticos.

"Awareness [sensibilização], ou seja, as pessoas entenderem que o oceano é vital, não importa onde elas estejam, se no meio do Brasil ou em Portugal. Depois, transformar a sociedade civil e as empresas. Estamos a trabalhar muito dentro das empresas para que mudem o seu mindset [mentalidade], para que consigamos ter mudanças na fabricação no plástico de uso único. E educação: as pessoas entenderem como é que podem fazer uma diferença."

Apesar de esta viagem terminar daqui a seis anos, David garante que a "Voz dos Oceanos" é um projeto "ad-eterno". "Não para mais, daqui a seis anos dá um giro no globo e depois é continuar a fazer isso".

A bordo do veleiro "Kat" para os destinos mais "impactantes"

O veleiro "Kat" não é poluente. Foi "construído com alta tecnologia ambiental" onde "entre 75 a 100% da energia é natural", o lixo é compactado em 80% e a água usada é tratada e devolvida ao mar totalmente limpa. "Geramos até a nossa própria água para beber", assinala David.

Desde que começaram a navegar no mar, a equipa de sete pessoas que está a bordo deste veleiro já passou por Portugal, onde na última expedição refez a rota do navegador Fernão de Magalhães. Depois de oito meses na costa brasileira, a "Voz dos Oceanos" já navegou também pelas Caraíbas e Bahamas. Neste momento, está a caminho de Nova Iorque e depois vai à América Central, cruzando o canal do Panamá, prosseguindo até às ilhas do Pacífico, Nova Zelândia, Ásia e, por fim, a Europa.

Voltas ao mundo com surpresas menos boas, até porque em oito meses de expedição não encontraram "nenhuma praia, nenhuma costa que não tivesse plástico".

"Passámos por uma ilha na Papua Nova Guiné, no sudeste asiático, onde em 150 metros de praia tirámos 30 sacos de lixo grande. Foi muito chocante e impactante para nós. Colocámos nas redes sociais e no Facebook tivemos três milhões de visualizações e 150 mil partilhas, com as pessoas a perguntarem: "Se o mar está assim, o que podemos fazer?""

Ainda assim, para David Schurmann, o local mais impressionante foram as Bahamas.

"É um arquipélago próximo aos EUA. Imaginávamos que teria uma consciência e um cuidado maior e passámos por inúmeras ilhas e a quantidade de lixo plástico é gigantesca", lamenta.

"Onda de mudança" é da responsabilidade de "todos"

Em oito meses, já se observa uma "diferença enorme", nota David. "Principalmente no Brasil, onde foi a grande parte da jornada, onde tivemos mais de 18 prefeituras assinando um tratado para ter infraestrutura para recolher o lixo, fizemos intervenções em todas as cidades principais, inclusive no Cristo Redentor uma projeção mapeada para chamar a atenção das pessoas de que temos de falar deste tema."

Na perspetiva do CEO, a responsabilidade para mudar o cenário de poluição nos oceanos cabe a todos. "Todo o mundo aponta... a culpa é do governo, é do fabricante... e ninguém aponta para si próprio. Temos que apontar o dedo para nós mesmos, porque cada um de nós tem responsabilidade."

Embora o panorama atual seja bastante preocupante, David acredita que é possível salvar os oceanos, relembrando o que aconteceu com a redução do buraco de ozono. "Acredito que vamos a tempo de salvá-los, acho que tivemos já o que aconteceu com a camada de ozono, em que a humanidade se uniu para tentar salvá-la e o buraco de ozono ficou menor. Acho que as pessoas têm uma consciência muito maior para entender e para poder mudar rápido. Precisamos que seja uma grande onda de mudança, não só alguns indivíduos, mas uma grande onda."

Há ainda muito trabalho a fazer, mas David afirma que o processo de mudança está apenas a começar. "Nós estamos começando hoje com os oceanos e eu acho que este encontro [Conferência dos Oceanos] é importantíssimo, porque você bota todas as pessoas, policymakers [legisladores], investidores e todo o mundo junto para debater e como dar passos práticos, porque não pode ficar só nos discursos", defende.

O papel de Portugal é, considera David, vital. "Vemos Portugal como uma liderança para temas europeus somente ligados ao mar, porque há essa tradição. Queremos agora entrar na Europa para falar da "Voz dos Oceanos" com a comunidade europeia e Portugal é o ponto de partida natural", adianta.

Quer ajudar a proteger os oceanos? Saiba como

David Schurmann deixa algumas dicas para que todos possam contribuir para oceanos mais saudáveis e sustentáveis.

"O senhor João e a dona Maria, em casa, têm uma responsabilidade de cuidar para onde o resíduo vai, diminuir o consumo de plástico de uso único. Não é que vamos acabar com o plástico no mundo, mas o plástico de uso único, que é o que encontramos no mar. Nós já vivíamos sem o plástico há muitos anos, conseguimos voltar a viver sem o plástico, principalmente o de uso único. Acho que os outros plásticos vão continuar permeando a nossa vida."

Além dos cidadãos, há também outras entidades que podem e devem agir: "As empresas têm que ter responsabilidade, tudo o que você põe para fora para o mundo, você é responsável, e como consumidor você tem que ter a opção de escolha. E os Governos vão começar a ser pressionados, tal como já estão a ser hoje, a fazer leis para isso. Eu sempre falo: hoje ainda é barato resolver esse problema, daqui a pouco vai ficar muito caro", avisa.

O trabalho da "Voz dos Oceanos" pode ser seguido através das redes sociais. O projeto conta também com o apoio de um grupo de comunicação no Brasil, onde é transmitido um programa televisivo por mês.

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